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A árvore que falava

Determinação


Sempre que se tem um objectivo a alcançar, deve-se ter também a força de vontade necessária para se levar a cabo o que é pretendido. A tentação de desistir é grande, sobretudo quando os obstáculos começam a surgir. Mas estes também têm a sua utilidade, porque ajudam a crescer interiormente.

 

 

A árvore que falava

Longe, muito longe… bem no coração da savana, vivia uma árvore maior e mais velha do que qualquer outra.

Abrigava, sob a sua corcha, toda a sabedoria de África.

A seus pés, por entre as altas ervas, a leoa espiava o antílope ou a zebra que se tinham afastado do grupo. Como era a única árvore das redondezas, os pássaros, que se empoleiravam nos ramos mais altos, conheciam-na bem. Também as girafas, que comiam as folhas dos ramos do meio, a conheciam. E os leões, que se estendiam sob os ramos baixos para fazerem a sesta…

E assim a árvore conhecia todos os segredos dos pássaros, dos leões, das girafas, das zebras e de muitos outros animais. É que ela escutava com todas as suas folhas.

Até os homens vinham sentar-se debaixo dela no momento das grandes decisões, discutindo os assuntos sérios à sombra dos seus ramos.

A árvore sabia mais sobre o povo dos homens do que o mais velho dos anciãos e o mais sábio dos sábios. Porque ela sabia calar-se, enquanto eles gostavam de falar.

Mas a árvore não guardava para si o seu saber: àqueles que tinham os ouvidos atentos, ela murmurava, em confidência, a resposta a muitas questões.

Quando os seus filhotes estavam suficientemente grandes para voar, as andorinhas, as cotovias e os estorninhos tinham por hábito levá-los até à árvore. Ao cair da noite, esta enchia-se de chilreios. Passado algum tempo, com três bicadas, os pais faziam calar os mais palradores. E cada um escutava o murmúrio que subia da raiz mais profunda até ao raminho mais alto.

No dia seguinte, os jovens sabiam um pouco mais da arte de voar em ziguezague para enganar as aves de rapina que mergulham sobre as presas. E a águia ou o milhafre regressavam às montanhas de mãos a abanar, perguntando-se por que milagre todos os passarinhos daquele canto da savana se tinham tornado, de repente, tão espertos!

E cada girafinha que partia a mascar um punhado de folhas da árvore ficava a saber um pouco melhor como evitar a leoa que caçava. E, misteriosamente, cada leãozinho, depois da sesta ao pé da árvore, desconfiava um pouco mais do riso da hiena que rondava à procura de uma presa fácil.

Mas os homens, esses, partiam tão sisudos e estúpidos como tinham vindo, e a sua tagarelice nada lhes tinha ensinado porque não sabiam escutar.

Eram orgulhosos e arrogantes. Incendiavam a savana com os seus fogos e matavam mais animais do que aqueles que precisavam para se alimentar. Matavam-se até uns aos outros. E chamavam a isso «a guerra». A árvore falava-lhes, como a todos, mas os homens não a escutavam. Por causa deles, a árvore ficou triste. Pela primeira vez, sentiu-se velha e cansada. Se pudesse, ter-se-ia deitado para esquecer. Mas quando se é uma árvore, é preciso ficar de pé a recordar…

Foi então que as suas folhas amareleceram e secaram e, em breve, ficou nua no meio da savana. Os pássaros começaram a desdenhar dos seus ramos e os leões e as girafas também, porque ela deixou de lhes falar.

E todos diziam que ela estava morta.

* * *

Por muito tempo a árvore seca ficou de pé. E parecia que nada viria alguma vez a mudar… O milhafre da montanha estava contente e as hienas riam-se. A leoa perdeu um leãozinho, a girafa uma girafinha e a andorinha, três passarinhos que mal sabiam voar.

Mas, uma manhã, veio um pequeno homem com um ar decidido. Tinha o olhar de uma criança, e esse olhar não reflectia nem fogo nem sangue. As suas mãos não agarravam nem arco nem zagaia. Contudo, era um homem.

Parou ao pé da árvore seca, estendeu os braços e, com as pontas dos dedos, tocou no tronco, muito devagar, ao de leve, como se acordasse alguém que dorme. A corcha estremeceu. E a voz do pequeno homem subiu ao longo da árvore, terna como um cântico muito antigo. O homem falava à árvore, cheio de simplicidade. Depois, calou-se. E encostando a orelha ao tronco, escutou. O vento nos ramos parecia formar palavras e frases. E quanto mais a árvore falava, mais a expressão do homem se iluminava.

Quando a árvore terminou, o homem partiu. Quando voltou, trazia um machado aos ombros. Uma vez perto da árvore, levantou a cabeça em direcção aos ramos e murmurou algumas palavras em tom de desculpa. Depois, firme nas suas pernas, com o cabo do machado bem preso nas mãos, começou a cortar o tronco.

E a madeira ressoou na savana, até aos limites do deserto e das montanhas.

Cada pássaro, cada leão e cada girafa reconheceram a voz da velha árvore.

Todos acorreram para junto dela, mas apenas encontraram um cepo e algumas aparas espalhadas pelo solo.

É que o pequeno homem, ajudado por alguns da sua aldeia, tinha levado a árvore até casa. E, com medo dos homens, os animais não se atreveram a segui-lo.

Uma vez chegados à aldeia, o homem pôs-se a trabalhar. Tinha uma grande ideia: para que a voz de madeira da velha sábia percorresse de novo a savana, iria fazer um tantã.

Um tantã mais sonoro e maior do que qualquer outro. Suficientemente longo para que todos os homens da tribo pudessem tocar em conjunto.

Quando o homem pegava de novo no machado para podar os ramos e deixar, assim, o tronco livre, aqueles que tinham carregado a árvore com ele fizeram-lhe sinal que parasse:

— Pequeno homem, nós ajudámos-te — disseram os homens fortes com as suas vozes grossas. — O nosso trabalho deve ser pago.

— Mas… com que é que vos vou pagar? Eu não tenho nada, bem sabem!

— Deixa-te disso! — insistiram os homens fortes. — Trouxemos a tua árvore, dá-nos a nossa parte.

— Não pode ser — protestou o homem. — É preciso que o tronco fique inteiro para o tantã. Se não, como é que a tribo poderá tocar?

Os homens obstinavam-se a reclamar a sua parte da madeira e o assunto foi levado ao Conselho dos Anciãos.

* * *

Era uma assembleia de homens muito velhos e muito tagarelas. Sempre prontos a pronunciar uma sentença ou um julgamento, tanto a propósito do que conheciam como do que ignoravam. Nada lhes agradava mais do que reunirem-se quando lhes pediam um conselho, e também quando não lhos pediam! Ora, o Conselho tinha por hábito reunir-se debaixo da grande árvore, e os velhos sentiam-se desamparados… pois a árvore tinha sido cortada! O mais velho dos Anciãos, um pequeno velhinho com a face enrugada como uma ameixa seca, agitou o cachimbo por cima da cabeça e tomou a palavra:

— O Conselho não se pode reunir por falta de um lugar adequado.

E expeliu uma baforada do seu cachimbo.

Os outros membros do Conselho, sentados em círculo, aprovaram com um movimento de cabeça, expeliram, cada um, uma baforada do seu cachimbo e guardaram silêncio.

Os homens fortes, que queriam a sua parte da árvore, e o pequeno homem, que nada queria, não sabiam o que fazer.

Impaciente por começar o trabalho, o homem avançou para dentro do círculo, curvou-se respeitosamente diante do mais velho dos Anciãos:

— Digam-me apenas se posso começar o meu trabalho, já que estais aqui reunidos.

— É verdade que estamos aqui — respondeu o Ancião. — Mas o Conselho não está reunido. Por isso, não pode dar a sua opinião.

Expeliu uma outra baforada e calou-se.

Os homens fortes, impacientes por levar a madeira que lhes cabia, inclinaram-se, por sua vez, diante dos Anciãos e disseram:

— Digam-nos apenas se podemos pegar na nossa parte.

O Ancião nem se deu ao trabalho de responder. Limitou-se a expelir uma baforada do cachimbo e permaneceu em silêncio.

Mas o mais forte, que também era o mais impaciente, deu um passo em frente.

De imediato, o velho homem largou o cachimbo e, com uma voz trémula, acrescentou precipitadamente:

— O Conselho vai reunir… para decidir onde terá lugar o próximo Conselho.

O discurso enfadonho que se seguiu poderia ter durado até ao final dos tempos, se o Conselho não tivesse acabado por decidir… que decidiria mais tarde!

De seguida, os velhos aconselharam o pequeno homem a dar aos homens fortes o que eles pediam. Depois, reclamaram, por sua vez, um pedaço da árvore como recompensa pelo sábio conselho. E o pequeno homem assim o fez, porque era costume dar uma prenda aos Anciãos, como agradecimento pelos seus conselhos.

E cada um se apressou a serrar, a rachar e a atar.

E o pedaço de árvore não tardou a transformar-se em achas, toros e feixes para queimar. Os homens acendiam fogueiras à volta da aldeia para manter afastados os animais selvagens. Ignoravam que os animais tinham ainda mais medo deles do que das suas fogueiras.

* * *

Um pouco desiludido, o pequeno homem reparou na diminuição do tronco, mas disse para si mesmo que, apesar de tudo, ainda chegava para fazer um bom tambor para a tribo.

Lançou-se ao trabalho, cheio de coragem. O machado, no entanto, não era muito adequado para o descortiçamento, por isso decidiu ir a casa de um vizinho pedir emprestado um podão, cuja lâmina curvada faria melhor o serviço. Como era hábito, o vizinho estava a fazer a sesta e o pequeno homem acordou-o para lhe fazer o pedido.

— Ah! És tu? — disse o vizinho, bocejando como um hipopótamo. — O que queres de mim?

— Podias emprestar-me o teu podão? — perguntou muito educadamente o pequeno homem.

— Eh! — respondeu o vizinho, tão amável quanto um crocodilo a quem interromperam a digestão. — Não me deixas dormir com esse barulho todo… E ainda por cima queres que te empreste o meu podão! E se eu precisar dele?

— Mas… é só por um dia! Amanhã já terei acabado!

— O que me dás em troca?

— Sabes bem que não tenho nada de meu.

— Ah não? E essa árvore? É tua, não é?

— Sim, mas… — começou o pequeno homem.

— Pois bem, dá-me um pedaço para alimentar a minha fogueira e emprestar-te-ei o meu podão.

Assim se fez, já que mais ninguém na aldeia tinha a ferramenta de que o pequeno homem precisava.

Um pouco desiludido, atentou no tronco, agora mais pequeno. No entanto, havia ainda madeira para fazer um tantã para a tribo.

Lançou-se ao trabalho, cheio de coragem. E o descortiçamento depressa terminou.

Mas, quando quis cavar o tronco, apercebeu-se de que não tinha cinzel para o fazer.

De certeza que o vizinho tinha um, mas será que lho emprestaria sem reclamar mais um pedaço da árvore?

Infelizmente, mais ninguém da aldeia tinha cinzel. E era preciso acordar novamente o hipopótamo, amável como um crocodilo.

— Tu, outra vez! — bocejou o vizinho. — O que queres?

— Desculpa — disse o pequeno homem com a sua voz gentil. — Vim devolver-te o podão… e pedir-te, em troca, um cinzel, se fazes o favor.

— Em troca? — zombou o vizinho. — Não há troca nenhuma porque o podão é meu. Dá-me um pedaço de madeira para a minha fogueira e emprestar-te-ei o meu cinzel.

* * *

Assim foi feito. E o pequeno homem, um pouco desiludido, atentou no tronco muito curto. Ainda podia fazer um bonito tantã, não para toda a tribo, mas, mesmo assim, um bonito tantã. Cheio de coragem, meteu mãos à obra e depressa cavou o tronco. Faltava apenas endurecê-lo ao lume, para que fosse mais sólido e para que o seu som chegasse mais longe.

Mas o pequeno homem não tinha fogueira e já havia dado tanta madeira aos outros que não possuía o suficiente nem para atear um fogo. Claro que a fogueira do vizinho crepitava, um pouco mais longe, mas não ousava acordá-lo pela terceira vez.
Foi então pedir aos homens fortes a permissão de passar o seu tantã pelo fogo.

— De acordo, — disseram eles — mas com a condição de pores uma acha na nossa fogueira, como todos fazem.

— Mas… já não tenho madeira, já vos dei tudo! — respondeu.

— Ah sim? E isto, isto não é madeira? — perguntou o mais forte dos homens fortes, indicando o pequeno tantã.

Com a morte na alma, o pequeno homem teve de se resolver a cortar um pedaço do tantã antes mesmo de lhe ter ouvido a voz.

E quando pensou naquilo que lhe restava do imenso tronco que a árvore lhe tinha dado, esteve quase para se sentar a chorar e abandonar o seu belo projecto.

Mas caiu de novo em si e disse para si mesmo que, apesar de tudo, se não chegasse para um tantã, chegaria para fazer um grande tambor.

Cheio de coragem, meteu mãos à obra e o que restava do tantã foi rapidamente convertido em djembé. (Djembé é o nome que se dá em África a esta espécie de tambor). Mas o pequeno homem apercebeu-se de que lhe faltava uma pele de cabra para o tambor.

Partiu então à procura do rebanho de cabras. A rapariga que as guardava era ainda quase uma criança, e o pequeno homem pensou que seria mais fácil falar com ela.

— Bom dia — disse à criança.

— Bom dia — respondeu ela. — És tu que dás madeira a toda a gente em troca de uma ferramenta ou de lume?

— Sim, quer dizer… — começou ele.

— O que queres de mim? — interrompeu a criança.

— Apenas uma pele de cabra, uma daquelas que tens por aí. Mas já não tenho madeira para te dar.

— É pena — disse a rapariga. — Porque também eu necessito de um pouco de madeira. Para afastar os leões do meu rebanho não há nada melhor do que uma boa fogueira, disseram-me os Anciãos.

— Oh, por favor, dá-me uma pele. Bem vejo que não te fazem falta — suplicou o pequeno homem.

— Pelo contrário, as minhas peles, troco-as por madeira! — retorquiu a criança.

E, como mais ninguém na aldeia tinha peles de cabra, o homem foi obrigado, uma vez mais, a cortar um pedaço do tambor.

* * *

A pele de cabra era dura e seca, frágil como uma corcha. Antes de a colocar no tambor, era preciso macerá-la, fervê-la, esticá-la, batê- la, para a tornar mais suave e tão sólida como o couro.

Só faltava levá-la ao curtidor.

Aquele que curtia todas as peles da tribo morava sozinho fora da aldeia, perto do rio. O seu trabalho requeria muita água. E os outros não tinham querido que ele se instalasse perto, devido ao cheiro insuportável das peles molhadas.

Mas, por mais longe que o curtidor morasse, também ele tinha ouvido falar da árvore abatida. Por sua vez, reclamou uma parte, como prémio do seu trabalho.

— Mas já não há nenhuma árvore! — lamentou-se o pequeno homem. Ficou apenas um tambor!

— De acordo — concluiu o curtidor. — Contentar-me-ei com um bocado do tambor.

E o pequeno homem cortou e deu-lhe a madeira, e a pele foi curtida, seca e ficou pronta a ser colocada no djembé.

Quando quis esticá-la, deu-se conta de que lhe faltava uma corda para o fazer.

Foi então à procura daquele que na aldeia melhor sabia entrançar cordas. É que a corda que estica a pele de um djembé tem de ser sólida.

Tal como os outros, o entrançador de cordas pediu um pouco de madeira. Apesar dos seus protestos e lamentos, o pequeno homem nada conseguiu. E o tambor ficou ainda mais pequeno.

Regressou a casa perturbado, com a corda ao ombro. Ao ver o tambor tão pequeno, perguntou-se se teria valido a pena o trabalho.

Depois, recordou a árvore que se erguia no meio da savana. Lembrou-se da promessa que lhe tinha feito e sentiu de novo coragem. Depressa a pele de cabra foi colocada no djembé, em arco, e muito esticada por uma rede de nós sólidos e complicados.

* * *

O homem olhou para o seu djembé, finalmente pronto! Claro que era um djembé muito pequenino, bem diferente daquele tantã que ele quereria ter talhado e no qual toda a tribo teria tocado em conjunto. No entanto, o homem não ficou decepcionado, porque era um belo djembé: esculpido, polido, suficientemente largo para as suas pequenas mãos, e suficientemente grande para lhe caber entre os joelhos. Então, quis experimentá-lo. Com as palmas e os dedos pôs-se a tocar. E a voz que saía deste tambor, tão pequenino que mais parecia um tambor de criança, era ampla e vasta e profunda como a floresta.

O homem sentiu-se arrebatado e as suas mãos continuaram a tocar… E a voz imponente do pequeno djembé estendeu-se a toda a aldeia e à savana inteira.

Um por um, todos os membros da tribo aproximaram-se dele. Tinham vindo todos: desde o mais ancião dos Anciãos à pequena guardadora de cabras, do mais forte dos homens fortes ao vizinho crocodilo. Tinham deixado as suas fogueiras, as suas conversas enfadonhas e as suas sestas, para formar um círculo em redor do pequeno tambor. E faziam silêncio.

Do pequeno djembé elevavam-se palavras e frases que diziam toda a savana: o medo da zebra que foge à azagaia do caçador ávido, o sofrimento da erva que curva perante a chama acesa pelo homem, a doçura do vento que murmura nos ramos da árvore… E os homens escutavam. Eles, que só pensavam na caça, na guerra e nas fogueiras, faziam silêncio.

Assim, até aos limites da montanha e do deserto, cada pássaro, cada leão e cada girafa reconheceram a voz da velha árvore. E, graças às mãos do pequeno homem, todos partilharam de novo o seu saber, por muito tempo ainda. Porque, ao som do djembé, o cepo da antiga árvore germinou. Do jovem rebento brotou uma nova árvore.

E, sob a sua corcha de árvore, corria a seiva da sabedoria de África.

A seus pés, por entre as ervas altas, a leoa espiava o antílope ou a zebra que se tinham afastado do grupo. Os pássaros, que se empoleiravam nos ramos mais altos, conheciam-na bem. E as girafas, que comiam as folhas dos ramos do meio, e os leões, que se estendiam sob os ramos baixos para fazerem a sesta.

Até os homens…

Do Spillers
L’arbre qui parle
Toulouse, Milan Poche, 1999
tradução e adaptação

A pedra no caminho

Perseverança

Há capacidades que ficam por desenvolver devido à falta de perseverança. Os verdadeiros sucessos são feitos de esforços, de desilusões, de novas tentativas e, por vezes, de muitos sacrifícios. Se as diversões forem colocadas em primeiro lugar, é provável que os frutos a colher se tornem bastante amargos.

 

A pedra no caminho

Conta-se a lenda de um rei que viveu há muitos anos num país para lá dos mares. Era muito sábio e não poupava esforços para inculcar bons hábitos nos seus súbditos. Frequentemente, fazia coisas que pareciam estranhas e inúteis; mas tudo se destinava a ensinar o povo a ser trabalhador e prudente.

— Nada de bom pode vir a uma nação — dizia ele — cujo povo reclama e espera que outros resolvam os seus problemas. Deus concede os seus dons a quem trata dos problemas por conta própria.

Uma noite, enquanto todos dormiam, pôs uma enorme pedra na estrada que passava pelo palácio. Depois, foi esconder-se atrás de uma cerca e esperou para ver o que acontecia.

Primeiro, veio um fazendeiro com uma carroça carregada de sementes que ele levava para a moagem.

— Onde já se viu tamanho descuido? — disse ele contrariado, enquanto desviava a sua parelha e contornava a pedra. — Por que motivo esses preguiçosos não mandam retirar a pedra da estrada?

E continuou a reclamar sobre a inutilidade dos outros, sem ao menos tocar, ele próprio, na pedra.

Logo depois surgiu a cantar um jovem soldado. A longa pluma do seu quépi ondulava na brisa, e uma espada reluzente pendia-lhe à cintura. Ele pensava na extraordinária coragem que revelaria na guerra.

O soldado não viu a pedra, mas tropeçou nela e estatelou-se no chão poeirento. Ergueu-se, sacudiu a poeira da roupa, pegou na espada e enfureceu-se com os preguiçosos que insensatamente haviam deixado uma pedra enorme na estrada. Também ele se afastou então, sem pensar uma única vez que ele próprio poderia retirar a pedra.

Assim correu o dia. Todos os que por ali passavam reclamavam e resmungavam por causa da pedra colocada na estrada, mas ninguém lhe tocava.

Finalmente, ao cair da noite, a filha do moleiro passou por lá. Era muito trabalhadora e estava cansada, pois desde cedo andara ocupada no moinho. Mas disse consigo própria: “Já está quase a escurecer e de noite, alguém pode tropeçar nesta pedra e ferir-se gravemente. Vou tirá-la do caminho.”

E tentou arrastar dali a pedra. Era muito pesada, mas a moça empurrou, e empurrou, e puxou, e inclinou, até que conseguiu retirá-la do lugar. Para sua surpresa, encontrou uma caixa debaixo da pedra.

Ergueu a caixa. Era pesada, pois estava cheia de alguma coisa. Havia na tampa os seguintes dizeres: “Esta caixa pertence a quem retirar a pedra.”

Ela abriu a caixa e descobriu que estava cheia de ouro.

A filha do moleiro foi para casa com o coração cheio de alegria. Quando o fazendeiro e o soldado e todos os outros ouviram o que havia ocorrido, juntaram-se em torno do local onde se encontrava a pedra. Revolveram com os pés o pó da estrada, na esperança de encontrarem um pedaço de ouro.

— Meus amigos — disse o rei — com frequência encontramos obstáculos e fardos no nosso caminho. Podemos, se assim preferirmos, reclamar alto e bom som enquanto nos desviamos deles, ou podemos retirá-los e descobrir o que eles significam. A decepção é normalmente o preço da preguiça.

Então, o sábio rei montou no seu cavalo e, dando delicadamente as boas-noites, retirou-se.

William J. Bennett
O Livro das Virtudes II
Editora Nova Fronteira, 1996

Como posso ajudar?

Discrição

Nos dias de hoje, é comum pensar-se que aqueles que são famosos têm mais valor do que a generalidade das pessoas. Mas tudo não passa de ilusão. Aqueles que têm verdadeiro valor não são os que se evidenciam em programas medíocres ou em espectáculos desportivos alienantes, mas os que se esforçam, de um modo muitas vezes anónimo, por tornar melhor o mundo em que vivem.

 

 

 

Como posso ajudar?

Quando isto aconteceu, Rom Dass era um jovem americano de visita ao Japão. Praticava Aikido, uma arte marcial japonesa. Sentia-se orgulhoso das suas capacidades e estava ansioso por pô-las em prática.

O comboio trepidava e oscilava pelos subúrbios de Tóquio, numa sonolenta tarde de Primavera. A nossa carruagem ia relativamente vazia – apenas algumas donas de casa com os filhos a reboque e alguns velhotes que iam às compras. Eu olhava distraído para as casas monótonas e para as sebes poeirentas.

Numa das estações, as portas abriram-se e, de repente, a tarde calma foi perturbada por um homem que praguejava violenta e incompreensivelmente. Cambaleou para dentro da nossa carruagem. Era alto, vestia um fato-macaco e estava bêbedo e sujo. Aos berros, deu um soco a uma mulher que trazia um bebé. O golpe fê-la rodopiar e cair no colo de um casal de idade. Foi um milagre o bebé não se ter magoado.

Aterrorizado, o casal levantou-se e precipitou-se para a outra extremidade da carruagem. O operário tentou pontapear o traseiro da senhora de idade mas falhou. Isto enfureceu-o de tal forma que agarrou o varão de metal do centro da carruagem e tentou arrancá-lo do lugar. Pude ver que tinha um corte numa das mãos e que sangrava. O comboio pôs-se subitamente em marcha, com os passageiros transidos de medo. Mantive-me firme.

Naquela altura, há cerca de vinte anos, eu era jovem e estava em muito boa forma. Ao longo dos últimos três anos tinha praticado oito horas de Aikido, quase diariamente. Gostava de agarrar os adversários e de os derrubar. Considerava-me um duro. O problema é que nunca testara a minha arte marcial em combates reais. Enquanto alunos de Aikido, não nos era permitido lutar.

― O Aikido — dizia constantemente o meu professor — é a arte da reconciliação. Quem tem a intenção de lutar quebra a sua ligação com o universo. Se tentarmos dominar as pessoas, já estamos derrotados. Queremos resolver conflitos, não criá-los.

Eu prestava atenção ao que ele dizia. Esforçava-me. Cheguei até a atravessar a rua para evitar os chimpira, um dos muitos bandos de jovens japoneses marginais que se juntam nas estações de comboio. A minha paciência enchia-me de orgulho. Sentia-me simultaneamente forte e santo. Contudo, no meu coração, ansiava por uma oportunidade totalmente legítima em que pudesse salvar os inocentes e ao mesmo tempo acabar com os culpados.

“É agora!”, disse a mim próprio enquanto me levantava. “Há pessoas em perigo. Se eu não agir depressa, alguém ficará magoado.”

Ao ver-me levantar, o bêbedo viu em mim um alvo contra o qual dirigir a sua raiva.

― Eh! ― gritou ― Um estrangeiro! Precisas de uma lição japonesa de boas maneiras.

Agarrei-me à correia da carruagem e olhei-o fixamente com desprezo e rejeição. Já tinha planeado arrumar de vez com aquele palerma, mas teria de ser ele a tomar a iniciativa. Como queria enfurecê-lo, juntei os lábios e atirei-lhe um beijo insolente.

― Muito bem! Vou dar-te uma lição — gritou. Preparou-se para me atacar.

Uns segundos antes dele se mexer, alguém gritou muito alto: ― Eh!

Lembro-me daquele som estranhamente alegre, luminoso. O som que soltamos quando encontramos algo que tínhamos procurado com afinco: ― Eh!

Virei-me para a esquerda e o bêbedo para a direita. Olhámos espantados para um Japonês velho e pequenino. Era um cavalheiro magro, que devia ter setenta e tal anos, e que estava vestido com um quimono imaculado. Não me prestou atenção, mas sorriu encantadoramente para o operário, como se tivesse um segredo muito importante e agradável para partilhar com ele.

― Venha cá ― chamou o velho. ― Venha cá falar comigo. ― E acenou ligeiramente.

O grandalhão fez o que ele disse, como se estivesse enfeitiçado. Plantou-se em frente do homem e gritou:

― Por que diabo tenho de falar consigo?

O bêbedo estava agora de costas voltadas para mim. Se o seu cotovelo se mexesse um milímetro que fosse, dava cabo dele.

O cavalheiro continuava a sorrir para ele.

― Que “teve” a beber? ― perguntou cheio de interesse.

― “Tive” a beber sake ― rosnou o operário, cobrindo-o de perdigotos ― e não é nada consigo!

― Oh, mas é maravilhoso, mesmo maravilhoso! É que eu também adoro sake. Todas as noites, eu e a minha mulher (ela tem 76 anos) aquecemos uma pequenina garrafa de sake, levamo-la para o jardim e sentamo-nos num velho banco de madeira. Admiramos o pôr- do-sol e vemos como se está a dar o nosso diospireiro. Foi plantado pelo meu bisavô e preocupa-nos se recuperará das tempestades de gelo do último Inverno. A nossa árvore tem-se portado melhor do que eu esperava, sobretudo tendo em conta a má qualidade da terra. É um grande prazer olhar para ela enquanto tomamos o nosso sake e desfrutamos do entardecer, mesmo quando chove.

Olhou para o operário, com os olhos a brilhar.

À medida que tentava seguir a conversa do velho senhor, a expressão do bêbedo começou a suavizar. Os punhos descerraram-se lentamente.

― É, eu também gosto muito de diospireiros…

A voz foi-se apagando.

― Pois é ― anuiu o velho senhor ― e tenho a certeza de que também tem uma mulher maravilhosa.

― Não, a minha mulher morreu.

Pouco a pouco, e à medida que se balouçava ao ritmo do comboio, o grandalhão começou a soluçar:

― “Num” tenho mulher, “num” tenho casa, “num” tenho emprego. Tenho tanta vergonha.

As lágrimas corriam-lhe pela cara abaixo e um espasmo de desespero percorreu-lhe o corpo.

Chegara a minha vez. Ali especado, com a minha inocência lavada de fresco e a minha arrogância de democrata militante, senti- me, de repente, mais sujo do que ele.

Logo de seguida, o comboio chegou à minha estação. Enquanto as portas se abriam, ouvi o velho senhor dizer de forma compreensiva:

― Meu Deus, que situação tão difícil. Sente-se aqui e fale-me disso.

Olhei-os pela última vez. Enquanto o comboio se afastava, sentei-me num banco. O que quisera fazer com os músculos, tinha sido conseguido com palavras gentis. Acabara de ver o Aikido testado em combate, e a sua essência era o amor. Teria de praticar a arte com um estado de espírito totalmente diferente. Ainda demoraria muito tempo até poder falar de resolução de conflitos.

Ram Dass e Paul Gorman

M. Clark; E. Briggs; C. Passmore (eds.)
Lighting candles in the dark
Philadelphia, FGC, 2001
tradução e adaptação

Laura Flor

Solidariedade


A ausência de diálogo leva à solidão. Muitas pessoas deprimidas acabaram no suicídio por não terem encontrado ninguém capaz de se interessar pelos seus problemas e de lhes incutir alguma esperança. O egoísmo, associado à mecanicidade do dia-a-dia, não permite a atenção ao outro, o gesto de delicadeza, a palavra que encoraja, a manifestação de afecto. Mas, sem isso, a vida torna-se árida.

 

Laura Flor

— Laura Flor, vem cá!

A Laura veio e era como uma flor. Delicada e suave flor igual ao nome.

Depois, foi a Maria Clara de tranças belas, castanhas, nariz arrebitado, sorriso claro – e Clara se chamava. A apertar a bata, na cintura, um cinto feito de papéis de lustro de cor, arco-íris naquela cintura de menina.

Depois, a Maria Odete, figurinha que parece ter saído de uma jarra, sempre com muitos cuidados a andar, a falar, jeito que lhe ficou de estar dentro da jarrinha. Uns olhos orientais, um sorriso que é quase choro, franjinha negra sobre os olhos à flor da pele.

— Maria Odete, se eu fosse ao Oriente e encontrasse uma flor, lembrava-me logo de ti!

— Pois é! Ela tem os olhos em bico! — diz uma companheira, pronta a tirar conclusões.

Maria Odete começa a chorar. A caírem-lhe as lágrimas devagarinho, brilhantes, também com cuidado, lentas, luminosas.

Eu não sei o que vou dizer, mas digo. Não sei o que disse, mas Maria Odete sorri. Devagarinho, também as lágrimas acabam de cair.

A que disse que a Maria Odete tinha os olhos em bico é tal e qual uma maçã dourada, redonda, toda muito por igual: maçã suspensa, nítida, decidida.

As meninas todas olharam com admiração a flor do Oriente.

Eu é que não devia dizer estas coisas, eu é que tenho a culpa – pensar alto. Mas havia reparado ontem na Maria Odete a dizer-me que não tinha livro nenhum.

— Foi tudo na cheia de ontem, minha senhora…

— E nunca mais os viste?

— Nunca mais! A minha bata, apanhei-a hoje na valeta… Até o dinheiro que ficou está a secar, preso por molas.

Diz isto com uma vozinha de quem canta dentro da tal jarra.

— Sabe a senhora? As minhas vizinhas dizem que vão reclamar ao Ministro…

—…?

— Porque não arranjaram aquele cano… É por isso que eu hoje não trago bata nem tenho livro…

— …

— … nem tenho dinheiro para comprar outro…

Diz isto tudo muito serena, com um ar de quem está a contar a história mais natural deste mundo. História tão cinzenta que na voz dela até parece um conto de fadas ao contrário.

A menina linda com os olhos à flor da pele, transparentes e escuros ao mesmo tempo. Puros. A infância desarmada.

— Senhor Ministro, devia ter mandado arranjar o cano. Não tenho livro, não tenho bata, o pouco dinheiro está a secar, preso por molas…

Tão serena. As lágrimas vagarosas de hoje – como meninas que saíram a passear para uma ilha imaginária.

Senhor Ministro, desça abaixo ao seu jardim…

Mas o Senhor Ministro não ouviu. Não desceu. Sabe lá o que é ter o pouco dinheiro preso por molas e os livros a irem na cheia.

E deve ter aprendido na escola, no liceu, que Camões salvou os Lusíadas a nado. E que deixou o fim do poema para Laura Flor escrever. Com uma peninha de rouxinol.

Matilde Rosa Araújo
As botas de meu pai
Lisboa, Livros Horizonte, 1977

Prudência

A precipitação pode dar maus resultados. É sempre preferível pensar antes de agir, de contrário, há fortes probabilidades de se vir a lamentar as consequências de certos actos que, depois de praticados, deixam marcas que não se podem apagar.

 

 

Marco brinca ao Bug’s Bunny

Os pais do José não têm televisão. Porém, há certos programas que ele não gostaria de perder. Por isso, duas ou três vezes por semana, lá se senta ele frente à televisão, em casa de Marco, o amigo que mora no prédio defronte. A mãe de Marco, a Sr.ª Carolina, não tem nada contra as visitas de José. É um rapazinho calmo, poder-se-ia dizer, ao vê-lo ali sentado em frente ao aparelho, com o rosto delgado e sério e as mãos sobre os joelhos irregulares.

Quando está mau tempo, descalça-se antes de entrar, sem que seja preciso dizer-lhe. Não, a Sr.ª Carolina não tem nada contra o facto de José ir ver televisão, absolutamente nada. Por vezes, quando as crianças estão sentadas na sala semi-obscura em frente do aparelho, a Sr.ª Carolina entra sem fazer barulho e dá uma olhadela ao ecrã.

Vê então um coelho engraçado passar aos saltinhos, um porquito que agita o chapéu e faz cabriolas.

“Ah, o Bug’s Bunny! Ainda bem que há programas tão simpáticos para as crianças”, pensa a Sr.ª Carolina.

Regressa, descansada, à cozinha e mete a loiça na máquina de lavar.

Entretanto, na sala, passam-se coisas emocionantes.

Bunny, o coelho, está a ser perseguido por Sam.

Sam tem pele escura, sobrancelhas espessas, cabelo e barba desgrenhados.

“Ele tem mesmo um aspecto de mau”, pensa Marco. “Pele escura e todo desgrenhado. Eu era capaz de reconhecer imediatamente um mau na rua.”

Por acaso, Marco até viu no jornal uma fotografia de Amadeu, assaltante de bancos. Tinha uma cara simpática, cara lisa sem barba, e vestia um fato normal com estampados de espinhas de peixe. Mas agora Marco não pensa nisso. Não tem tempo para pensar.

É que a acção já começou.

O mau puxa de duas pistolas e aponta-as à inocente cabeça do coelho Bunny. O grande malandro! E o coelho que só lhe tinha arreganhado amigavelmente os dentes da frente!

Pum!

Boing!

Pam!

O pobre do coelho quase não sobrevive a isto. Mas o fumo da pólvora já se dissipou. Bunny ainda cá está, são como um pêro, e malha com um cacete em cima de Sam. Sam escapa-se, vai buscar uma faca de cabo comprido e quer reduzir Bunny a pó.

Mas o coelho não é preguiçoso. Enche um melão com dinamite e consegue pô-lo na mesa do almoço. Sam parece ser não só mau mas também míope. Já está a levar o melão à boca rodeada de barba espessa.

Miac! Miac!

Puummmm!

Chuviscam estrelas. Do mau, resta apenas uma nuvem de pólvora. Mas… um, dois, três… cá está ele, chamuscado e careca como um frango depenado.

No momento seguinte, já vai outra vez, são como um pêro, a correr atrás do coelho. Uma perseguição emocionante. Sam tramou uma coisa infame: e lá vai – socorro! – uma porta de chumbo a cair sobre Bunny.

Agora é que o apanhou de vez.

Errado, queridas crianças!

Cá vem ele a arrastar-se de debaixo da porta, mais espalmado do que um mata-moscas.

Pronto! Agora é que o mau vai ter uma surpresa. O coelho dá- lhe uma salsicha de dinamite para comer. À conta dessa, o coelho acaba dentro de uma máquina de lavar roupa em funcionamento.

Um pouco mais tarde, é enfiado numa panela de água a ferver. Engraçado a valer. É de morrer a rir como se matam um ao outro!

José assusta-se, como se fosse sempre a primeira vez. Está imóvel, de olhos fixos no ecrã.

Marco, pelo contrário, ri-se às gargalhadas. Há muito que se habituou aos divertidos jogos assassinos.

Quando, no fim do programa, carrega no botão e apaga o ecrã, as imagens continuam a faiscar algures dentro dele.

Um bando inteiro de maus, um bando de coelhos, muitos diabos pequeninos estão agora dentro dele.

Centenas, milhares, que dão tiros uns aos outros.

Calcam-se com os pés, fazem-se explodir.

Matam à pancada, esquartejam.

Ralam, amordaçam.

Não o deixam em paz. Vão todos atrás de Marco, quando este desce as escadas com José e atravessa o pátio nas traseiras do prédio.

O que mais gostava de fazer agora era qualquer coisa maluca. Partir um vidro, destruir uma bicicleta ou, pelo menos, meter dentro uma grade da cave. Só que o porteiro, no fim do trabalho, deita-se sempre por baixo da janela da cozinha, a apreciar o ar morno do fim da tarde, como ele próprio costuma dizer. O seu filho Hugo está no pátio, entre os caixotes do lixo, a treinar-se com as andas.

Marco e José sentam-se no muro que separa o local cimentado dos arbustos de jardim.

Marco ainda está a pensar no Bug’s Bunny. Lembra-se agora de cenas que viu na última semana, ou na penúltima, e que achou mesmo engraçadas.

Bunny tinha uma chávena de chá na mão e perguntou:

— Um ou dois quadrados de açúcar?

— Dois — respondeu Sam.

Então o coelho bateu-lhe duas vezes com o martelo na cabeça.

E, de uma vez, Sam perguntou:

— Bunny, estás a ver o animalzinho no meu punho? — Bunny abanou a cabeça e, curioso,
inclinou-se para ver.

— Então vou mostrar-te.

Sam riu maldosamente e deu-lhe com o punho na cara.

— Eh, Zé! — disse Marco de repente, estendendo-lhe o punho fechado. — Consegues ver a pastilha elástica minúscula que está na unha do meu polegar?

— Não.

José aproxima a cara muito perto e pestaneja, cansado.

— Poing! — grita Marco. Ao mesmo tempo, o punho fechado aterra no olho direito de José.

O riso explode como um balão de pastilha elástica. Ouve-se José a gemer. A mão apalpa a sobrancelha, o sangue goteja. Por baixo da pálpebra começa a nascer uma nódoa negra.

Marco, agora, está muito assustado.

Olha fixamente para a boca de José, que está puxada para o lado de uma forma tão esquisita, como se José estivesse a rir. Mas José não está a rir. Aperta os dentes convulsivamente. Por entre a fileira dos dentes a respiração sai tumultuosa. O olho magoado deve doer-lhe muito. Outro rapaz ter-se-ia atirado a Marco, mas José limitou-se a virar na direcção de Marco o olho são, que agora também está muito pequeno e a piscar. O olho acusa Marco. “Porquê?”, parece perguntar.

Marco não consegue entender. Era só uma brincadeira. Na série de televisão que acabou de ver, fazem coisas muito piores uns aos outros. E nunca há lágrimas.

Nunca se vê sangue.

Ninguém fica doente.

Ninguém fica mutilado.

Ninguém morre.

— Só queria brincar ao Bug’s Bunny — diz Marco. — Desculpa, José.

— Bug’s Bunny, Bug’s Bunny! — grita o filho do porteiro, que passa a correr junto ao muro e que apanhou as últimas palavras de Marco. Pára no tapete, olha para o muro, puxa os lábios para a frente para imitar um nariz a farejar e grunhe com uma voz grossa de porco:

— Então, até à próxima vez, meus queridos amigos. E seeeeempre alegres!

— Anda — diz Marco, pegando na mão de José e afastando-o do muro. Pelo caminho, sentiu a mão de José. É quente, palpitante, e acima dos nós dos dedos, está um pouco molhada pelas lágrimas que enxugou.

Eveline Hasler

Jutta Modler (org.)
Frieden fängt zu Hause an
München, DTV Junior, 1989
tradução e adaptação

A pena pesada

Coragem


É um sinal de coragem ser-se capaz de enfrentar os obstáculos com serenidade e de se adaptar às circunstâncias, que, ainda que desfavoráveis, são sempre oportunidades de amadurecimento. É, em contrapartida, um sinal de cobardia maltratar os mais fracos.

 

A pena pesada

Kassa Kena Gananina foi antigamente o herói mais poderoso, mais temido e mais amado do povo mandinga. Um só volteio da sua arma podia matar vinte antílopes. Um só rasgo de cólera nos olhos assustava tanto as flechas inimigas que todas caíam a seus pés como para lhe pedirem compaixão. Kassa Kena Gananina era, em verdade, «aquele a quem nada podia vencer». Era assim que lhe chamavam, tanto entre os homens como entre os animais da terra e os espíritos celestes.

Ora, uma noite, quando festejava uma jornada de caça carnívora, chegou à aldeia um viajante curvado sobre um cajado tão gasto pelos caminhos que mais parecia a bengala de um anão.

Este venerável vagabundo, depois de saciado com um gole de água e alimentado com um pedaço de carne, sentou-se sob a árvore da palavra e pôs-se a contar as maravilhas que encontrara ao longo da sua vida errante por países longínquos. Aconteceu, assim, falar de um certo pássaro, Konoba, que vivia numa floresta montanhosa para lá dos territórios comuns dos homens.

— Esse monstro — disse — é tão gigantesco que escurece o dia quando abre as asas. Pode, no entanto, tornar-se tão pequeno como um punho de mulher, mas então fica tão pesado que os baobás se enterram no chão com o seu peso. Sabe ser belo, se quiser, medonho, se o desejar. É invencível. Quanto mais poderoso é quem o enfrenta, maior prazer e facilidade tem Konoba em vencê-lo, porque o seu alimento preferido é a própria força dos seus inimigos.

Kassa Kena Gananina, ouvindo estas palavras, franziu o sobrolho e baixou a cabeça. Os companheiros, vendo-o assim pensativo, desafiaram-no com insistência a sobreviver a um combate leal contra um monstro daquela espécie. Os elogios depressa aqueceram o coração do herói. Levantou-se, foi a casa buscar a arma e, sem dizer palavra, saiu em direcção a essa montanha onde vivia o prodigioso dragão.

Caminhou sete dias e sete noites, com passos largos e a cabeça metida nos ombros, sem descansar. Na madrugada do oitavo dia, chegou à última aldeia antes da terra do Konoba. Perguntou onde vivia este inimigo dos homens que desejava combater. Um velhote, tremendo de susto só de ouvir o nome do monstro, descreveu-lhe o caminho que desembocava na floresta.

Kassa Kena Gananina, nesse caminho enevoado, andou até ao meio-dia sem encontrar caça ou caçador. Chegado a uma clareira, o sol desapareceu repentinamente e à sua volta fez-se uma grande penumbra. O céu encheu-se de um murmúrio semelhante ao que atravessa a terra quando as suas entranhas se movem. O herói ergueu a fronte. Viu o pássaro. Estava imóvel, à altura de uma árvore. A cabeça de bico amarelo e curvo pendia entre as asas, tão vastas como o céu visível. Os olhos eram parecidos com duas luas de cores variadas. As garras eram sabres curvos.

— Homem poderoso e belo, eu te saúdo — disse o dragão celeste com voz aguda. — A tua força parece-me tão saborosa como um fruto fresco. Acende em ti a ira e a cólera para que eu me sacie com elas!

Kassa Kena Gananina estendeu o punho armado à face trocista, saltou para um rochedo, fez voltear a sua massa de ferro. No primeiro volteio vazou o olho esquerdo do pássaro Konoba, no segundo cegou o olho direito, que chorou lágrimas de fogo. Então, num ruído ensurdecedor de asas, o monstro encolheu e num instante se reduziu a uma bola negra, que num longo silvo desceu do céu e caiu tão pesadamente que a terra tremeu e abriu fendas. Kassa Kena Gananina, de cabeça erguida para o grande Sol, soltou um grito de triunfo.

Viu uma pena a última liberta das asas evaporadas balancear-se no ar calmo sobre a sua cabeça. Quis agarrá-la, mas ela escapou-se-lhe e pousou-lhe na nuca. Então, o herói curvou as costas, titubeou, caiu de joelhos e deixou-se ir até enterrar o queixo na terra, coberto por esse fardo insuportável. Tentou arrancar essa pena muito pesada do cabelo, onde estava presa. Não o conseguiu e ficou grotescamente ajoelhado, resmungando e debatendo-se como uma raposa apanhada na armadilha.

Depois de ter gritado, pedido ajuda e, finalmente gemido, sem forças, durante muito tempo, veio o crepúsculo e com ele apareceu ao fundo da clareira uma mulher de idade. Trazia às costas uma criança pequena de pernas roliças, mas já em idade de andar. Kassa Kena Gananina chamou-a, agitando a mão sobre a erva e, com voz moribunda, pediu-lhe que fosse buscar todos os homens da aldeia para que o ajudassem a desfazer-se daquela pena tão pesada como um monte.

— O que te passou pela cabeça — disse ela — para precisares que sessenta e cinco guerreiros do meu clã venham tirar-te essa coisa da nuca?

Debruçou-se, soprou e a pena voou. Depois agarrou no pássaro Konoba, reduzido a uma bola no solo fendido, e estendeu-o à criança, que o agarrou e brincou com ele, rindo, entre as suas mãos ágeis. Os dois afastaram-se na paz do dia que acabava.

Kassa Kena Gananina ficou durante muito tempo sentado no chão, completamente estupefacto e desconcertado. Depois voltou à sua aldeia, onde contou a aventura à sombra da Árvore da Palavra. Quando disse como tinha sido liberto, fez-se um silêncio perplexo na assembleia. Então, um ancião sonolento bocejou ruidosamente e disse, levantando-se para se ir deitar:

— Para quem não sabe nada do pássaro Konoba, uma pena é uma pena — balbuciou. — Boa noite, senhores.

Kassa Kena Gananina beijou as mãos do sábio, e a partir desse dia entregou-se à conquista infinita de um bem mais precioso do que toda a força: a inocência.

Henri Gougaud
A Árvore dos Tesouros
Lisboa, Gradiva, 1998

Delicadeza

A falta de compostura e as liberdades de linguagem tomaram o lugar da correcção e da delicadeza, que ainda prevaleciam há algum tempo atrás. A mentalidade permissiva que tem vindo a instalar-se, a par de um falso conceito de liberdade, tem criado situações de grave confusão, das quais os mais jovens são as principais vítimas.

 

As palavras cor-de-rosa e as palavras cinzentas

Um dia, sem se saber muito bem porquê, tudo aconteceu de repente: as palavras cor-de-rosa desapareceram do planeta. O que são palavras cor-de-rosa? São palavras delicadas, como Obrigado, Faça favor, Se não se importa, És tão importante para mim. Palavras tão doces que são como mel no coração.

Seria obra do Mago Cinzento, que só gostava do salgado, do picante e do amargo? Não… Eram os homens que, vá lá saber-se porquê, preferiam as palavras picantes, amargas e salgadas.

Naquela época, existiam na Terra lojas de palavras cor-de-rosa e lojas de palavras cinzentas. Os vendedores de palavras cor-de-rosa vendiam Amo-te, Penso em ti, Muito Obrigado, Se faz favor… Os vendedores de palavras cinzentas vendiam sobretudo Cabeça de alho chocho, Não me chateies, Cala o bico…

A princípio, comprava-se muito mais palavras cor-de-rosa do que palavras cinzentas. Os vendedores de palavras cor-de-rosa faziam bons negócios, e um perfume doce envolvia a Terra. Os vendedores de palavras cinzentas passavam os dias à espera, porque só tinham clientes uma ou duas vezes por ano, por alturas de grandes zangas.

No entanto, um dia, os homens puseram-se estranhamente a comprar palavras cinzentas. Havia uma crise de emprego, uma greve de corações. Os patrões compravam muitos Vá pregar a outra freguesia, Está bem arranjado, homem, Obrigado pelos seus serviços mas está despedido. Havia guerras entre famílias, divórcios, casais que já não se entendiam. Invejas entre irmãos, zangas… Comprava-se vários Já não gosto de ti, Acabou tudo. Nas lojas de palavras cor-de- rosa, muitos Obrigado, Por favor, Gosto de ti, ficavam por vender.

— Para o diabo com as palavras doces — diziam os homens. — São caras e não trazem nenhum benefício.

Os vendedores de palavras cor-de-rosa, desolados, já não sabiam onde as armazenar.

As lojas cor-de-rosa fechavam umas atrás das outras. Passa-se, Fechado por morte do proprietário, Liquidação total, Quinze palavras cor-de-rosa pelo preço de uma. Mas, mesmo a preços módicos, elas não atraíam ninguém. As lojas de palavras cinzentas, essas sim, prosperavam. Porque, e isso é bem conhecido, as palavras feias são contagiosas. Se no recreio te lembrares de lançar uma, receberás dez em troca! Abriram-se mesmo lojas especializadas em palavras feias, risos grosseiros, insultos horríveis. E os vendedores cinzentos trabalhavam dia e noite para descobrirem jóias raras, as palavras mais horríveis e mais maldosas!

Como receavam ficar sem provisões, como costuma acontecer em tempo de guerra, as pessoas começaram a fazer conservas de palavras cinzentas. Congelaram-nas às dúzias, empilharam-nas nos armários da cozinha, nos guarda-fatos, debaixo das camas.

E, upa, ao menor atrito, ao mais pequeno gracejo, à mais insignificante discussão, ia-se à reserva: Cala o bico, Vai ver se chove, És um atraso de vida, Ó gordefas, e assim por adiante!

Os aniversários tinham lugar no meio dos piores insultos. Cantarolava-se Infeliz aniversário, infeliz aniversário, lançando-se uma bomba de palavras feias no meio da festa. Entre os adultos, para se festejar a passagem do ano, comia-se as passas e bebia-se sumo de peúgas pretas, no meio de gracejos do género:

Desejo-te um ano péssimo… e, principalmente, muito pouca saúde!

E, quando se abriam as prendas, era um concerto de gemidos:

Que feio! Como é que tiveste uma ideia tão má? É, de facto, o presente que eu menos queria receber!

Antes das aulas, as crianças corriam para as lojas cinzentas e enchiam os bolsos de palavras feias para a hora do recreio. Antes das férias, os adultos também lá iam, para encherem as malas de palavras cinzentas, de piadas estúpidas, que atiravam pela janela na auto- estrada, entre as sandes e o café, durante os engarrafamentos: Ó aselha, vai mas é plantar batatas!

À face da Terra, a atmosfera era glacial. O Sol, que tem medo das grosserias e dos arraiais de pancada, recusava-se agora a brilhar. Lembrava-se de outros tempos, em que era acolhido de braços abertos:

Está bom tempo! Que maravilha! Obrigado, amigo Sol… Oh, meu Deus, como gosto do Sol…

Em vez disso, ouvia-se agora:

Que calor horrível! Bolas! Kêkalôr!

Então as nuvens invadiram o céu, e a terra mergulhou num período glacial. Toda a gente tinha frio. As pessoas recusavam-se a despir-se, já não faziam festas umas às outras, já não nasciam bebés. A Terra estava tão triste, sem flores nem palavras cor-de-rosa!

No entanto, algures no mundo, um rapazinho não queria habituar-se às palavras cinzentas. Talvez por, no seu bolso, ter ficado uma palavra cor-de-rosa meio gelada. “Eu”, dizia Pedro, “não quero um mundo onde mais ninguém canta; onde não se diz bom dia, nem obrigado, onde há sempre tanto frio. Vou ver se encontro o Sol.” O rapazinho caminhou durante muito tempo, escalou colinas geladas, pequenas e grandes montanhas, vulcões extintos. Por fim, ao cabo de meses e meses de árdua caminhada, chegou exausto e transido à casa das nuvens.

— Toc, toc — bateu. — Venho à procura do Sol.

— Oh, oh! — exclamou a nuvem-chefe, que se tinha apoderado do céu cinzento. — Olhem só para isto… Um fedelho ridículo que vem à procura do senhor Sol! O Sol não aparece a ninguém! Desde que as palavras cinzentas tomaram o poder, somos nós, as nuvens pardacentas, que somos os chefes.

Dito isto, virou as costas e fechou-lhe a porta na cara.

O rapazinho sentou-se, confuso. Como responder? Não trazia no bolso uma única palavra cinzenta. Então, começou a chorar. A nuvem olhou para ele surpreendida: já há muito tempo que não via ninguém chorar! Naquele universo glacial, todos os olhos estavam gelados, todos os corações estavam frios.

— Pára com isso imediatamente! — gemeu a nuvem. — Se não, vou fazer cair um aguaceiro. (Porque as nuvens têm habitualmente a lágrima ao canto do olho.)

Finalmente comovida, tomou, lá no íntimo, a decisão de o ajudar.

— Olha — disse-lhe. — Aquela bolinha amarela ali em baixo é o Sol.

Pedro abriu os olhos e viu de facto uma bola de bilhar perdida na imensidão do azul: era o Sol, que estava a desaparecer por causa dos maus-tratos.

Já no limite das forças, o rapazinho caminhou em direcção da pequena bola amarela.

— Bom dia — cumprimentou. — Vim buscar-te. Tudo se tornou cinzento na Terra. Temos frio, sentimo-nos mal. Nunca nos rimos, nunca dizemos palavras delicadas. Tens de voltar.

E o Sol e o rapazinho começaram ambos a suspirar, pensando naquela “época cor-de-rosa”.

— Tens de voltar — insistiu Pedro.

— Vou, a título de experiência — resmungou o Sol. — Mas atira primeiro para a Terra estas palavras cor-de-rosa. Assim, o meu regresso será mais agradável.

O Sol deu ao menino um conjunto de palavras cor-de-rosa: Por favor, É simpático da tua parte, Muito obrigado, Gosto muito de ti, Amor da minha vida, Se não se importa, etc. O rapazinho meteu-as nos bolsos, na boca, no boné, nas meias, em todo o lado. Todas as que ele conseguisse levar.

Regressou à Terra e distribuiu-as ao acaso.

De repente, nos engarrafamentos, as pessoas começaram a desdobrar os papelinhos cor-de-rosa: Faz favor de passar, Que tempo tão bonito, não acha?, Pode ir à minha frente, não tenho pressa nenhuma…

Nos recreios, começaram a ouvir-se novamente risos simpáticos e palavras como És o meu melhor amigo, Claro que podes entrar no jogo…

Em casa, as crianças voltaram a usar palavras cor-de-rosa: Obrigada, mamã, Por favor, Desculpa, não fiz de propósito…

Nos aniversários, cantava-se alegremente e, nas festas da passagem do ano, formulava-se votos de felicidade e de saúde.

O Sol voltou a brilhar e a deitar-se todas as noites na sua nuvem cor-de-rosa. E, juro-te, os vendedores de palavras cor-de-rosa começaram a fazer fortuna! Abriram-se mesmo outras lojas especializadas em sorrisos, em suspiros de satisfação, em delicadeza, em cortesia, em civismo… Foi como mel no coração.

Quanto às palavras cinzentas, decidiram, diante de tanta felicidade, desarvorar com quantas patas cinzentas e peludas tinham. E, quando alguma se lembrava de vir meter o nariz, garanto-vos que não ficava por muito tempo.

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