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Archive for the ‘reflexão para adolescentes’ Category

Determinação


Sempre que se tem um objectivo a alcançar, deve-se ter também a força de vontade necessária para se levar a cabo o que é pretendido. A tentação de desistir é grande, sobretudo quando os obstáculos começam a surgir. Mas estes também têm a sua utilidade, porque ajudam a crescer interiormente.

 

 

A árvore que falava

Longe, muito longe… bem no coração da savana, vivia uma árvore maior e mais velha do que qualquer outra.

Abrigava, sob a sua corcha, toda a sabedoria de África.

A seus pés, por entre as altas ervas, a leoa espiava o antílope ou a zebra que se tinham afastado do grupo. Como era a única árvore das redondezas, os pássaros, que se empoleiravam nos ramos mais altos, conheciam-na bem. Também as girafas, que comiam as folhas dos ramos do meio, a conheciam. E os leões, que se estendiam sob os ramos baixos para fazerem a sesta…

E assim a árvore conhecia todos os segredos dos pássaros, dos leões, das girafas, das zebras e de muitos outros animais. É que ela escutava com todas as suas folhas.

Até os homens vinham sentar-se debaixo dela no momento das grandes decisões, discutindo os assuntos sérios à sombra dos seus ramos.

A árvore sabia mais sobre o povo dos homens do que o mais velho dos anciãos e o mais sábio dos sábios. Porque ela sabia calar-se, enquanto eles gostavam de falar.

Mas a árvore não guardava para si o seu saber: àqueles que tinham os ouvidos atentos, ela murmurava, em confidência, a resposta a muitas questões.

Quando os seus filhotes estavam suficientemente grandes para voar, as andorinhas, as cotovias e os estorninhos tinham por hábito levá-los até à árvore. Ao cair da noite, esta enchia-se de chilreios. Passado algum tempo, com três bicadas, os pais faziam calar os mais palradores. E cada um escutava o murmúrio que subia da raiz mais profunda até ao raminho mais alto.

No dia seguinte, os jovens sabiam um pouco mais da arte de voar em ziguezague para enganar as aves de rapina que mergulham sobre as presas. E a águia ou o milhafre regressavam às montanhas de mãos a abanar, perguntando-se por que milagre todos os passarinhos daquele canto da savana se tinham tornado, de repente, tão espertos!

E cada girafinha que partia a mascar um punhado de folhas da árvore ficava a saber um pouco melhor como evitar a leoa que caçava. E, misteriosamente, cada leãozinho, depois da sesta ao pé da árvore, desconfiava um pouco mais do riso da hiena que rondava à procura de uma presa fácil.

Mas os homens, esses, partiam tão sisudos e estúpidos como tinham vindo, e a sua tagarelice nada lhes tinha ensinado porque não sabiam escutar.

Eram orgulhosos e arrogantes. Incendiavam a savana com os seus fogos e matavam mais animais do que aqueles que precisavam para se alimentar. Matavam-se até uns aos outros. E chamavam a isso «a guerra». A árvore falava-lhes, como a todos, mas os homens não a escutavam. Por causa deles, a árvore ficou triste. Pela primeira vez, sentiu-se velha e cansada. Se pudesse, ter-se-ia deitado para esquecer. Mas quando se é uma árvore, é preciso ficar de pé a recordar…

Foi então que as suas folhas amareleceram e secaram e, em breve, ficou nua no meio da savana. Os pássaros começaram a desdenhar dos seus ramos e os leões e as girafas também, porque ela deixou de lhes falar.

E todos diziam que ela estava morta.

* * *

Por muito tempo a árvore seca ficou de pé. E parecia que nada viria alguma vez a mudar… O milhafre da montanha estava contente e as hienas riam-se. A leoa perdeu um leãozinho, a girafa uma girafinha e a andorinha, três passarinhos que mal sabiam voar.

Mas, uma manhã, veio um pequeno homem com um ar decidido. Tinha o olhar de uma criança, e esse olhar não reflectia nem fogo nem sangue. As suas mãos não agarravam nem arco nem zagaia. Contudo, era um homem.

Parou ao pé da árvore seca, estendeu os braços e, com as pontas dos dedos, tocou no tronco, muito devagar, ao de leve, como se acordasse alguém que dorme. A corcha estremeceu. E a voz do pequeno homem subiu ao longo da árvore, terna como um cântico muito antigo. O homem falava à árvore, cheio de simplicidade. Depois, calou-se. E encostando a orelha ao tronco, escutou. O vento nos ramos parecia formar palavras e frases. E quanto mais a árvore falava, mais a expressão do homem se iluminava.

Quando a árvore terminou, o homem partiu. Quando voltou, trazia um machado aos ombros. Uma vez perto da árvore, levantou a cabeça em direcção aos ramos e murmurou algumas palavras em tom de desculpa. Depois, firme nas suas pernas, com o cabo do machado bem preso nas mãos, começou a cortar o tronco.

E a madeira ressoou na savana, até aos limites do deserto e das montanhas.

Cada pássaro, cada leão e cada girafa reconheceram a voz da velha árvore.

Todos acorreram para junto dela, mas apenas encontraram um cepo e algumas aparas espalhadas pelo solo.

É que o pequeno homem, ajudado por alguns da sua aldeia, tinha levado a árvore até casa. E, com medo dos homens, os animais não se atreveram a segui-lo.

Uma vez chegados à aldeia, o homem pôs-se a trabalhar. Tinha uma grande ideia: para que a voz de madeira da velha sábia percorresse de novo a savana, iria fazer um tantã.

Um tantã mais sonoro e maior do que qualquer outro. Suficientemente longo para que todos os homens da tribo pudessem tocar em conjunto.

Quando o homem pegava de novo no machado para podar os ramos e deixar, assim, o tronco livre, aqueles que tinham carregado a árvore com ele fizeram-lhe sinal que parasse:

— Pequeno homem, nós ajudámos-te — disseram os homens fortes com as suas vozes grossas. — O nosso trabalho deve ser pago.

— Mas… com que é que vos vou pagar? Eu não tenho nada, bem sabem!

— Deixa-te disso! — insistiram os homens fortes. — Trouxemos a tua árvore, dá-nos a nossa parte.

— Não pode ser — protestou o homem. — É preciso que o tronco fique inteiro para o tantã. Se não, como é que a tribo poderá tocar?

Os homens obstinavam-se a reclamar a sua parte da madeira e o assunto foi levado ao Conselho dos Anciãos.

* * *

Era uma assembleia de homens muito velhos e muito tagarelas. Sempre prontos a pronunciar uma sentença ou um julgamento, tanto a propósito do que conheciam como do que ignoravam. Nada lhes agradava mais do que reunirem-se quando lhes pediam um conselho, e também quando não lhos pediam! Ora, o Conselho tinha por hábito reunir-se debaixo da grande árvore, e os velhos sentiam-se desamparados… pois a árvore tinha sido cortada! O mais velho dos Anciãos, um pequeno velhinho com a face enrugada como uma ameixa seca, agitou o cachimbo por cima da cabeça e tomou a palavra:

— O Conselho não se pode reunir por falta de um lugar adequado.

E expeliu uma baforada do seu cachimbo.

Os outros membros do Conselho, sentados em círculo, aprovaram com um movimento de cabeça, expeliram, cada um, uma baforada do seu cachimbo e guardaram silêncio.

Os homens fortes, que queriam a sua parte da árvore, e o pequeno homem, que nada queria, não sabiam o que fazer.

Impaciente por começar o trabalho, o homem avançou para dentro do círculo, curvou-se respeitosamente diante do mais velho dos Anciãos:

— Digam-me apenas se posso começar o meu trabalho, já que estais aqui reunidos.

— É verdade que estamos aqui — respondeu o Ancião. — Mas o Conselho não está reunido. Por isso, não pode dar a sua opinião.

Expeliu uma outra baforada e calou-se.

Os homens fortes, impacientes por levar a madeira que lhes cabia, inclinaram-se, por sua vez, diante dos Anciãos e disseram:

— Digam-nos apenas se podemos pegar na nossa parte.

O Ancião nem se deu ao trabalho de responder. Limitou-se a expelir uma baforada do cachimbo e permaneceu em silêncio.

Mas o mais forte, que também era o mais impaciente, deu um passo em frente.

De imediato, o velho homem largou o cachimbo e, com uma voz trémula, acrescentou precipitadamente:

— O Conselho vai reunir… para decidir onde terá lugar o próximo Conselho.

O discurso enfadonho que se seguiu poderia ter durado até ao final dos tempos, se o Conselho não tivesse acabado por decidir… que decidiria mais tarde!

De seguida, os velhos aconselharam o pequeno homem a dar aos homens fortes o que eles pediam. Depois, reclamaram, por sua vez, um pedaço da árvore como recompensa pelo sábio conselho. E o pequeno homem assim o fez, porque era costume dar uma prenda aos Anciãos, como agradecimento pelos seus conselhos.

E cada um se apressou a serrar, a rachar e a atar.

E o pedaço de árvore não tardou a transformar-se em achas, toros e feixes para queimar. Os homens acendiam fogueiras à volta da aldeia para manter afastados os animais selvagens. Ignoravam que os animais tinham ainda mais medo deles do que das suas fogueiras.

* * *

Um pouco desiludido, o pequeno homem reparou na diminuição do tronco, mas disse para si mesmo que, apesar de tudo, ainda chegava para fazer um bom tambor para a tribo.

Lançou-se ao trabalho, cheio de coragem. O machado, no entanto, não era muito adequado para o descortiçamento, por isso decidiu ir a casa de um vizinho pedir emprestado um podão, cuja lâmina curvada faria melhor o serviço. Como era hábito, o vizinho estava a fazer a sesta e o pequeno homem acordou-o para lhe fazer o pedido.

— Ah! És tu? — disse o vizinho, bocejando como um hipopótamo. — O que queres de mim?

— Podias emprestar-me o teu podão? — perguntou muito educadamente o pequeno homem.

— Eh! — respondeu o vizinho, tão amável quanto um crocodilo a quem interromperam a digestão. — Não me deixas dormir com esse barulho todo… E ainda por cima queres que te empreste o meu podão! E se eu precisar dele?

— Mas… é só por um dia! Amanhã já terei acabado!

— O que me dás em troca?

— Sabes bem que não tenho nada de meu.

— Ah não? E essa árvore? É tua, não é?

— Sim, mas… — começou o pequeno homem.

— Pois bem, dá-me um pedaço para alimentar a minha fogueira e emprestar-te-ei o meu podão.

Assim se fez, já que mais ninguém na aldeia tinha a ferramenta de que o pequeno homem precisava.

Um pouco desiludido, atentou no tronco, agora mais pequeno. No entanto, havia ainda madeira para fazer um tantã para a tribo.

Lançou-se ao trabalho, cheio de coragem. E o descortiçamento depressa terminou.

Mas, quando quis cavar o tronco, apercebeu-se de que não tinha cinzel para o fazer.

De certeza que o vizinho tinha um, mas será que lho emprestaria sem reclamar mais um pedaço da árvore?

Infelizmente, mais ninguém da aldeia tinha cinzel. E era preciso acordar novamente o hipopótamo, amável como um crocodilo.

— Tu, outra vez! — bocejou o vizinho. — O que queres?

— Desculpa — disse o pequeno homem com a sua voz gentil. — Vim devolver-te o podão… e pedir-te, em troca, um cinzel, se fazes o favor.

— Em troca? — zombou o vizinho. — Não há troca nenhuma porque o podão é meu. Dá-me um pedaço de madeira para a minha fogueira e emprestar-te-ei o meu cinzel.

* * *

Assim foi feito. E o pequeno homem, um pouco desiludido, atentou no tronco muito curto. Ainda podia fazer um bonito tantã, não para toda a tribo, mas, mesmo assim, um bonito tantã. Cheio de coragem, meteu mãos à obra e depressa cavou o tronco. Faltava apenas endurecê-lo ao lume, para que fosse mais sólido e para que o seu som chegasse mais longe.

Mas o pequeno homem não tinha fogueira e já havia dado tanta madeira aos outros que não possuía o suficiente nem para atear um fogo. Claro que a fogueira do vizinho crepitava, um pouco mais longe, mas não ousava acordá-lo pela terceira vez.
Foi então pedir aos homens fortes a permissão de passar o seu tantã pelo fogo.

— De acordo, — disseram eles — mas com a condição de pores uma acha na nossa fogueira, como todos fazem.

— Mas… já não tenho madeira, já vos dei tudo! — respondeu.

— Ah sim? E isto, isto não é madeira? — perguntou o mais forte dos homens fortes, indicando o pequeno tantã.

Com a morte na alma, o pequeno homem teve de se resolver a cortar um pedaço do tantã antes mesmo de lhe ter ouvido a voz.

E quando pensou naquilo que lhe restava do imenso tronco que a árvore lhe tinha dado, esteve quase para se sentar a chorar e abandonar o seu belo projecto.

Mas caiu de novo em si e disse para si mesmo que, apesar de tudo, se não chegasse para um tantã, chegaria para fazer um grande tambor.

Cheio de coragem, meteu mãos à obra e o que restava do tantã foi rapidamente convertido em djembé. (Djembé é o nome que se dá em África a esta espécie de tambor). Mas o pequeno homem apercebeu-se de que lhe faltava uma pele de cabra para o tambor.

Partiu então à procura do rebanho de cabras. A rapariga que as guardava era ainda quase uma criança, e o pequeno homem pensou que seria mais fácil falar com ela.

— Bom dia — disse à criança.

— Bom dia — respondeu ela. — És tu que dás madeira a toda a gente em troca de uma ferramenta ou de lume?

— Sim, quer dizer… — começou ele.

— O que queres de mim? — interrompeu a criança.

— Apenas uma pele de cabra, uma daquelas que tens por aí. Mas já não tenho madeira para te dar.

— É pena — disse a rapariga. — Porque também eu necessito de um pouco de madeira. Para afastar os leões do meu rebanho não há nada melhor do que uma boa fogueira, disseram-me os Anciãos.

— Oh, por favor, dá-me uma pele. Bem vejo que não te fazem falta — suplicou o pequeno homem.

— Pelo contrário, as minhas peles, troco-as por madeira! — retorquiu a criança.

E, como mais ninguém na aldeia tinha peles de cabra, o homem foi obrigado, uma vez mais, a cortar um pedaço do tambor.

* * *

A pele de cabra era dura e seca, frágil como uma corcha. Antes de a colocar no tambor, era preciso macerá-la, fervê-la, esticá-la, batê- la, para a tornar mais suave e tão sólida como o couro.

Só faltava levá-la ao curtidor.

Aquele que curtia todas as peles da tribo morava sozinho fora da aldeia, perto do rio. O seu trabalho requeria muita água. E os outros não tinham querido que ele se instalasse perto, devido ao cheiro insuportável das peles molhadas.

Mas, por mais longe que o curtidor morasse, também ele tinha ouvido falar da árvore abatida. Por sua vez, reclamou uma parte, como prémio do seu trabalho.

— Mas já não há nenhuma árvore! — lamentou-se o pequeno homem. Ficou apenas um tambor!

— De acordo — concluiu o curtidor. — Contentar-me-ei com um bocado do tambor.

E o pequeno homem cortou e deu-lhe a madeira, e a pele foi curtida, seca e ficou pronta a ser colocada no djembé.

Quando quis esticá-la, deu-se conta de que lhe faltava uma corda para o fazer.

Foi então à procura daquele que na aldeia melhor sabia entrançar cordas. É que a corda que estica a pele de um djembé tem de ser sólida.

Tal como os outros, o entrançador de cordas pediu um pouco de madeira. Apesar dos seus protestos e lamentos, o pequeno homem nada conseguiu. E o tambor ficou ainda mais pequeno.

Regressou a casa perturbado, com a corda ao ombro. Ao ver o tambor tão pequeno, perguntou-se se teria valido a pena o trabalho.

Depois, recordou a árvore que se erguia no meio da savana. Lembrou-se da promessa que lhe tinha feito e sentiu de novo coragem. Depressa a pele de cabra foi colocada no djembé, em arco, e muito esticada por uma rede de nós sólidos e complicados.

* * *

O homem olhou para o seu djembé, finalmente pronto! Claro que era um djembé muito pequenino, bem diferente daquele tantã que ele quereria ter talhado e no qual toda a tribo teria tocado em conjunto. No entanto, o homem não ficou decepcionado, porque era um belo djembé: esculpido, polido, suficientemente largo para as suas pequenas mãos, e suficientemente grande para lhe caber entre os joelhos. Então, quis experimentá-lo. Com as palmas e os dedos pôs-se a tocar. E a voz que saía deste tambor, tão pequenino que mais parecia um tambor de criança, era ampla e vasta e profunda como a floresta.

O homem sentiu-se arrebatado e as suas mãos continuaram a tocar… E a voz imponente do pequeno djembé estendeu-se a toda a aldeia e à savana inteira.

Um por um, todos os membros da tribo aproximaram-se dele. Tinham vindo todos: desde o mais ancião dos Anciãos à pequena guardadora de cabras, do mais forte dos homens fortes ao vizinho crocodilo. Tinham deixado as suas fogueiras, as suas conversas enfadonhas e as suas sestas, para formar um círculo em redor do pequeno tambor. E faziam silêncio.

Do pequeno djembé elevavam-se palavras e frases que diziam toda a savana: o medo da zebra que foge à azagaia do caçador ávido, o sofrimento da erva que curva perante a chama acesa pelo homem, a doçura do vento que murmura nos ramos da árvore… E os homens escutavam. Eles, que só pensavam na caça, na guerra e nas fogueiras, faziam silêncio.

Assim, até aos limites da montanha e do deserto, cada pássaro, cada leão e cada girafa reconheceram a voz da velha árvore. E, graças às mãos do pequeno homem, todos partilharam de novo o seu saber, por muito tempo ainda. Porque, ao som do djembé, o cepo da antiga árvore germinou. Do jovem rebento brotou uma nova árvore.

E, sob a sua corcha de árvore, corria a seiva da sabedoria de África.

A seus pés, por entre as ervas altas, a leoa espiava o antílope ou a zebra que se tinham afastado do grupo. Os pássaros, que se empoleiravam nos ramos mais altos, conheciam-na bem. E as girafas, que comiam as folhas dos ramos do meio, e os leões, que se estendiam sob os ramos baixos para fazerem a sesta.

Até os homens…

Do Spillers
L’arbre qui parle
Toulouse, Milan Poche, 1999
tradução e adaptação

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Perseverança

Há capacidades que ficam por desenvolver devido à falta de perseverança. Os verdadeiros sucessos são feitos de esforços, de desilusões, de novas tentativas e, por vezes, de muitos sacrifícios. Se as diversões forem colocadas em primeiro lugar, é provável que os frutos a colher se tornem bastante amargos.

 

A pedra no caminho

Conta-se a lenda de um rei que viveu há muitos anos num país para lá dos mares. Era muito sábio e não poupava esforços para inculcar bons hábitos nos seus súbditos. Frequentemente, fazia coisas que pareciam estranhas e inúteis; mas tudo se destinava a ensinar o povo a ser trabalhador e prudente.

— Nada de bom pode vir a uma nação — dizia ele — cujo povo reclama e espera que outros resolvam os seus problemas. Deus concede os seus dons a quem trata dos problemas por conta própria.

Uma noite, enquanto todos dormiam, pôs uma enorme pedra na estrada que passava pelo palácio. Depois, foi esconder-se atrás de uma cerca e esperou para ver o que acontecia.

Primeiro, veio um fazendeiro com uma carroça carregada de sementes que ele levava para a moagem.

— Onde já se viu tamanho descuido? — disse ele contrariado, enquanto desviava a sua parelha e contornava a pedra. — Por que motivo esses preguiçosos não mandam retirar a pedra da estrada?

E continuou a reclamar sobre a inutilidade dos outros, sem ao menos tocar, ele próprio, na pedra.

Logo depois surgiu a cantar um jovem soldado. A longa pluma do seu quépi ondulava na brisa, e uma espada reluzente pendia-lhe à cintura. Ele pensava na extraordinária coragem que revelaria na guerra.

O soldado não viu a pedra, mas tropeçou nela e estatelou-se no chão poeirento. Ergueu-se, sacudiu a poeira da roupa, pegou na espada e enfureceu-se com os preguiçosos que insensatamente haviam deixado uma pedra enorme na estrada. Também ele se afastou então, sem pensar uma única vez que ele próprio poderia retirar a pedra.

Assim correu o dia. Todos os que por ali passavam reclamavam e resmungavam por causa da pedra colocada na estrada, mas ninguém lhe tocava.

Finalmente, ao cair da noite, a filha do moleiro passou por lá. Era muito trabalhadora e estava cansada, pois desde cedo andara ocupada no moinho. Mas disse consigo própria: “Já está quase a escurecer e de noite, alguém pode tropeçar nesta pedra e ferir-se gravemente. Vou tirá-la do caminho.”

E tentou arrastar dali a pedra. Era muito pesada, mas a moça empurrou, e empurrou, e puxou, e inclinou, até que conseguiu retirá-la do lugar. Para sua surpresa, encontrou uma caixa debaixo da pedra.

Ergueu a caixa. Era pesada, pois estava cheia de alguma coisa. Havia na tampa os seguintes dizeres: “Esta caixa pertence a quem retirar a pedra.”

Ela abriu a caixa e descobriu que estava cheia de ouro.

A filha do moleiro foi para casa com o coração cheio de alegria. Quando o fazendeiro e o soldado e todos os outros ouviram o que havia ocorrido, juntaram-se em torno do local onde se encontrava a pedra. Revolveram com os pés o pó da estrada, na esperança de encontrarem um pedaço de ouro.

— Meus amigos — disse o rei — com frequência encontramos obstáculos e fardos no nosso caminho. Podemos, se assim preferirmos, reclamar alto e bom som enquanto nos desviamos deles, ou podemos retirá-los e descobrir o que eles significam. A decepção é normalmente o preço da preguiça.

Então, o sábio rei montou no seu cavalo e, dando delicadamente as boas-noites, retirou-se.

William J. Bennett
O Livro das Virtudes II
Editora Nova Fronteira, 1996

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Discrição

Nos dias de hoje, é comum pensar-se que aqueles que são famosos têm mais valor do que a generalidade das pessoas. Mas tudo não passa de ilusão. Aqueles que têm verdadeiro valor não são os que se evidenciam em programas medíocres ou em espectáculos desportivos alienantes, mas os que se esforçam, de um modo muitas vezes anónimo, por tornar melhor o mundo em que vivem.

 

 

 

Como posso ajudar?

Quando isto aconteceu, Rom Dass era um jovem americano de visita ao Japão. Praticava Aikido, uma arte marcial japonesa. Sentia-se orgulhoso das suas capacidades e estava ansioso por pô-las em prática.

O comboio trepidava e oscilava pelos subúrbios de Tóquio, numa sonolenta tarde de Primavera. A nossa carruagem ia relativamente vazia – apenas algumas donas de casa com os filhos a reboque e alguns velhotes que iam às compras. Eu olhava distraído para as casas monótonas e para as sebes poeirentas.

Numa das estações, as portas abriram-se e, de repente, a tarde calma foi perturbada por um homem que praguejava violenta e incompreensivelmente. Cambaleou para dentro da nossa carruagem. Era alto, vestia um fato-macaco e estava bêbedo e sujo. Aos berros, deu um soco a uma mulher que trazia um bebé. O golpe fê-la rodopiar e cair no colo de um casal de idade. Foi um milagre o bebé não se ter magoado.

Aterrorizado, o casal levantou-se e precipitou-se para a outra extremidade da carruagem. O operário tentou pontapear o traseiro da senhora de idade mas falhou. Isto enfureceu-o de tal forma que agarrou o varão de metal do centro da carruagem e tentou arrancá-lo do lugar. Pude ver que tinha um corte numa das mãos e que sangrava. O comboio pôs-se subitamente em marcha, com os passageiros transidos de medo. Mantive-me firme.

Naquela altura, há cerca de vinte anos, eu era jovem e estava em muito boa forma. Ao longo dos últimos três anos tinha praticado oito horas de Aikido, quase diariamente. Gostava de agarrar os adversários e de os derrubar. Considerava-me um duro. O problema é que nunca testara a minha arte marcial em combates reais. Enquanto alunos de Aikido, não nos era permitido lutar.

― O Aikido — dizia constantemente o meu professor — é a arte da reconciliação. Quem tem a intenção de lutar quebra a sua ligação com o universo. Se tentarmos dominar as pessoas, já estamos derrotados. Queremos resolver conflitos, não criá-los.

Eu prestava atenção ao que ele dizia. Esforçava-me. Cheguei até a atravessar a rua para evitar os chimpira, um dos muitos bandos de jovens japoneses marginais que se juntam nas estações de comboio. A minha paciência enchia-me de orgulho. Sentia-me simultaneamente forte e santo. Contudo, no meu coração, ansiava por uma oportunidade totalmente legítima em que pudesse salvar os inocentes e ao mesmo tempo acabar com os culpados.

“É agora!”, disse a mim próprio enquanto me levantava. “Há pessoas em perigo. Se eu não agir depressa, alguém ficará magoado.”

Ao ver-me levantar, o bêbedo viu em mim um alvo contra o qual dirigir a sua raiva.

― Eh! ― gritou ― Um estrangeiro! Precisas de uma lição japonesa de boas maneiras.

Agarrei-me à correia da carruagem e olhei-o fixamente com desprezo e rejeição. Já tinha planeado arrumar de vez com aquele palerma, mas teria de ser ele a tomar a iniciativa. Como queria enfurecê-lo, juntei os lábios e atirei-lhe um beijo insolente.

― Muito bem! Vou dar-te uma lição — gritou. Preparou-se para me atacar.

Uns segundos antes dele se mexer, alguém gritou muito alto: ― Eh!

Lembro-me daquele som estranhamente alegre, luminoso. O som que soltamos quando encontramos algo que tínhamos procurado com afinco: ― Eh!

Virei-me para a esquerda e o bêbedo para a direita. Olhámos espantados para um Japonês velho e pequenino. Era um cavalheiro magro, que devia ter setenta e tal anos, e que estava vestido com um quimono imaculado. Não me prestou atenção, mas sorriu encantadoramente para o operário, como se tivesse um segredo muito importante e agradável para partilhar com ele.

― Venha cá ― chamou o velho. ― Venha cá falar comigo. ― E acenou ligeiramente.

O grandalhão fez o que ele disse, como se estivesse enfeitiçado. Plantou-se em frente do homem e gritou:

― Por que diabo tenho de falar consigo?

O bêbedo estava agora de costas voltadas para mim. Se o seu cotovelo se mexesse um milímetro que fosse, dava cabo dele.

O cavalheiro continuava a sorrir para ele.

― Que “teve” a beber? ― perguntou cheio de interesse.

― “Tive” a beber sake ― rosnou o operário, cobrindo-o de perdigotos ― e não é nada consigo!

― Oh, mas é maravilhoso, mesmo maravilhoso! É que eu também adoro sake. Todas as noites, eu e a minha mulher (ela tem 76 anos) aquecemos uma pequenina garrafa de sake, levamo-la para o jardim e sentamo-nos num velho banco de madeira. Admiramos o pôr- do-sol e vemos como se está a dar o nosso diospireiro. Foi plantado pelo meu bisavô e preocupa-nos se recuperará das tempestades de gelo do último Inverno. A nossa árvore tem-se portado melhor do que eu esperava, sobretudo tendo em conta a má qualidade da terra. É um grande prazer olhar para ela enquanto tomamos o nosso sake e desfrutamos do entardecer, mesmo quando chove.

Olhou para o operário, com os olhos a brilhar.

À medida que tentava seguir a conversa do velho senhor, a expressão do bêbedo começou a suavizar. Os punhos descerraram-se lentamente.

― É, eu também gosto muito de diospireiros…

A voz foi-se apagando.

― Pois é ― anuiu o velho senhor ― e tenho a certeza de que também tem uma mulher maravilhosa.

― Não, a minha mulher morreu.

Pouco a pouco, e à medida que se balouçava ao ritmo do comboio, o grandalhão começou a soluçar:

― “Num” tenho mulher, “num” tenho casa, “num” tenho emprego. Tenho tanta vergonha.

As lágrimas corriam-lhe pela cara abaixo e um espasmo de desespero percorreu-lhe o corpo.

Chegara a minha vez. Ali especado, com a minha inocência lavada de fresco e a minha arrogância de democrata militante, senti- me, de repente, mais sujo do que ele.

Logo de seguida, o comboio chegou à minha estação. Enquanto as portas se abriam, ouvi o velho senhor dizer de forma compreensiva:

― Meu Deus, que situação tão difícil. Sente-se aqui e fale-me disso.

Olhei-os pela última vez. Enquanto o comboio se afastava, sentei-me num banco. O que quisera fazer com os músculos, tinha sido conseguido com palavras gentis. Acabara de ver o Aikido testado em combate, e a sua essência era o amor. Teria de praticar a arte com um estado de espírito totalmente diferente. Ainda demoraria muito tempo até poder falar de resolução de conflitos.

Ram Dass e Paul Gorman

M. Clark; E. Briggs; C. Passmore (eds.)
Lighting candles in the dark
Philadelphia, FGC, 2001
tradução e adaptação

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Solidariedade


A ausência de diálogo leva à solidão. Muitas pessoas deprimidas acabaram no suicídio por não terem encontrado ninguém capaz de se interessar pelos seus problemas e de lhes incutir alguma esperança. O egoísmo, associado à mecanicidade do dia-a-dia, não permite a atenção ao outro, o gesto de delicadeza, a palavra que encoraja, a manifestação de afecto. Mas, sem isso, a vida torna-se árida.

 

Laura Flor

— Laura Flor, vem cá!

A Laura veio e era como uma flor. Delicada e suave flor igual ao nome.

Depois, foi a Maria Clara de tranças belas, castanhas, nariz arrebitado, sorriso claro – e Clara se chamava. A apertar a bata, na cintura, um cinto feito de papéis de lustro de cor, arco-íris naquela cintura de menina.

Depois, a Maria Odete, figurinha que parece ter saído de uma jarra, sempre com muitos cuidados a andar, a falar, jeito que lhe ficou de estar dentro da jarrinha. Uns olhos orientais, um sorriso que é quase choro, franjinha negra sobre os olhos à flor da pele.

— Maria Odete, se eu fosse ao Oriente e encontrasse uma flor, lembrava-me logo de ti!

— Pois é! Ela tem os olhos em bico! — diz uma companheira, pronta a tirar conclusões.

Maria Odete começa a chorar. A caírem-lhe as lágrimas devagarinho, brilhantes, também com cuidado, lentas, luminosas.

Eu não sei o que vou dizer, mas digo. Não sei o que disse, mas Maria Odete sorri. Devagarinho, também as lágrimas acabam de cair.

A que disse que a Maria Odete tinha os olhos em bico é tal e qual uma maçã dourada, redonda, toda muito por igual: maçã suspensa, nítida, decidida.

As meninas todas olharam com admiração a flor do Oriente.

Eu é que não devia dizer estas coisas, eu é que tenho a culpa – pensar alto. Mas havia reparado ontem na Maria Odete a dizer-me que não tinha livro nenhum.

— Foi tudo na cheia de ontem, minha senhora…

— E nunca mais os viste?

— Nunca mais! A minha bata, apanhei-a hoje na valeta… Até o dinheiro que ficou está a secar, preso por molas.

Diz isto com uma vozinha de quem canta dentro da tal jarra.

— Sabe a senhora? As minhas vizinhas dizem que vão reclamar ao Ministro…

—…?

— Porque não arranjaram aquele cano… É por isso que eu hoje não trago bata nem tenho livro…

— …

— … nem tenho dinheiro para comprar outro…

Diz isto tudo muito serena, com um ar de quem está a contar a história mais natural deste mundo. História tão cinzenta que na voz dela até parece um conto de fadas ao contrário.

A menina linda com os olhos à flor da pele, transparentes e escuros ao mesmo tempo. Puros. A infância desarmada.

— Senhor Ministro, devia ter mandado arranjar o cano. Não tenho livro, não tenho bata, o pouco dinheiro está a secar, preso por molas…

Tão serena. As lágrimas vagarosas de hoje – como meninas que saíram a passear para uma ilha imaginária.

Senhor Ministro, desça abaixo ao seu jardim…

Mas o Senhor Ministro não ouviu. Não desceu. Sabe lá o que é ter o pouco dinheiro preso por molas e os livros a irem na cheia.

E deve ter aprendido na escola, no liceu, que Camões salvou os Lusíadas a nado. E que deixou o fim do poema para Laura Flor escrever. Com uma peninha de rouxinol.

Matilde Rosa Araújo
As botas de meu pai
Lisboa, Livros Horizonte, 1977

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Prudência

A precipitação pode dar maus resultados. É sempre preferível pensar antes de agir, de contrário, há fortes probabilidades de se vir a lamentar as consequências de certos actos que, depois de praticados, deixam marcas que não se podem apagar.

 

 

Marco brinca ao Bug’s Bunny

Os pais do José não têm televisão. Porém, há certos programas que ele não gostaria de perder. Por isso, duas ou três vezes por semana, lá se senta ele frente à televisão, em casa de Marco, o amigo que mora no prédio defronte. A mãe de Marco, a Sr.ª Carolina, não tem nada contra as visitas de José. É um rapazinho calmo, poder-se-ia dizer, ao vê-lo ali sentado em frente ao aparelho, com o rosto delgado e sério e as mãos sobre os joelhos irregulares.

Quando está mau tempo, descalça-se antes de entrar, sem que seja preciso dizer-lhe. Não, a Sr.ª Carolina não tem nada contra o facto de José ir ver televisão, absolutamente nada. Por vezes, quando as crianças estão sentadas na sala semi-obscura em frente do aparelho, a Sr.ª Carolina entra sem fazer barulho e dá uma olhadela ao ecrã.

Vê então um coelho engraçado passar aos saltinhos, um porquito que agita o chapéu e faz cabriolas.

“Ah, o Bug’s Bunny! Ainda bem que há programas tão simpáticos para as crianças”, pensa a Sr.ª Carolina.

Regressa, descansada, à cozinha e mete a loiça na máquina de lavar.

Entretanto, na sala, passam-se coisas emocionantes.

Bunny, o coelho, está a ser perseguido por Sam.

Sam tem pele escura, sobrancelhas espessas, cabelo e barba desgrenhados.

“Ele tem mesmo um aspecto de mau”, pensa Marco. “Pele escura e todo desgrenhado. Eu era capaz de reconhecer imediatamente um mau na rua.”

Por acaso, Marco até viu no jornal uma fotografia de Amadeu, assaltante de bancos. Tinha uma cara simpática, cara lisa sem barba, e vestia um fato normal com estampados de espinhas de peixe. Mas agora Marco não pensa nisso. Não tem tempo para pensar.

É que a acção já começou.

O mau puxa de duas pistolas e aponta-as à inocente cabeça do coelho Bunny. O grande malandro! E o coelho que só lhe tinha arreganhado amigavelmente os dentes da frente!

Pum!

Boing!

Pam!

O pobre do coelho quase não sobrevive a isto. Mas o fumo da pólvora já se dissipou. Bunny ainda cá está, são como um pêro, e malha com um cacete em cima de Sam. Sam escapa-se, vai buscar uma faca de cabo comprido e quer reduzir Bunny a pó.

Mas o coelho não é preguiçoso. Enche um melão com dinamite e consegue pô-lo na mesa do almoço. Sam parece ser não só mau mas também míope. Já está a levar o melão à boca rodeada de barba espessa.

Miac! Miac!

Puummmm!

Chuviscam estrelas. Do mau, resta apenas uma nuvem de pólvora. Mas… um, dois, três… cá está ele, chamuscado e careca como um frango depenado.

No momento seguinte, já vai outra vez, são como um pêro, a correr atrás do coelho. Uma perseguição emocionante. Sam tramou uma coisa infame: e lá vai – socorro! – uma porta de chumbo a cair sobre Bunny.

Agora é que o apanhou de vez.

Errado, queridas crianças!

Cá vem ele a arrastar-se de debaixo da porta, mais espalmado do que um mata-moscas.

Pronto! Agora é que o mau vai ter uma surpresa. O coelho dá- lhe uma salsicha de dinamite para comer. À conta dessa, o coelho acaba dentro de uma máquina de lavar roupa em funcionamento.

Um pouco mais tarde, é enfiado numa panela de água a ferver. Engraçado a valer. É de morrer a rir como se matam um ao outro!

José assusta-se, como se fosse sempre a primeira vez. Está imóvel, de olhos fixos no ecrã.

Marco, pelo contrário, ri-se às gargalhadas. Há muito que se habituou aos divertidos jogos assassinos.

Quando, no fim do programa, carrega no botão e apaga o ecrã, as imagens continuam a faiscar algures dentro dele.

Um bando inteiro de maus, um bando de coelhos, muitos diabos pequeninos estão agora dentro dele.

Centenas, milhares, que dão tiros uns aos outros.

Calcam-se com os pés, fazem-se explodir.

Matam à pancada, esquartejam.

Ralam, amordaçam.

Não o deixam em paz. Vão todos atrás de Marco, quando este desce as escadas com José e atravessa o pátio nas traseiras do prédio.

O que mais gostava de fazer agora era qualquer coisa maluca. Partir um vidro, destruir uma bicicleta ou, pelo menos, meter dentro uma grade da cave. Só que o porteiro, no fim do trabalho, deita-se sempre por baixo da janela da cozinha, a apreciar o ar morno do fim da tarde, como ele próprio costuma dizer. O seu filho Hugo está no pátio, entre os caixotes do lixo, a treinar-se com as andas.

Marco e José sentam-se no muro que separa o local cimentado dos arbustos de jardim.

Marco ainda está a pensar no Bug’s Bunny. Lembra-se agora de cenas que viu na última semana, ou na penúltima, e que achou mesmo engraçadas.

Bunny tinha uma chávena de chá na mão e perguntou:

— Um ou dois quadrados de açúcar?

— Dois — respondeu Sam.

Então o coelho bateu-lhe duas vezes com o martelo na cabeça.

E, de uma vez, Sam perguntou:

— Bunny, estás a ver o animalzinho no meu punho? — Bunny abanou a cabeça e, curioso,
inclinou-se para ver.

— Então vou mostrar-te.

Sam riu maldosamente e deu-lhe com o punho na cara.

— Eh, Zé! — disse Marco de repente, estendendo-lhe o punho fechado. — Consegues ver a pastilha elástica minúscula que está na unha do meu polegar?

— Não.

José aproxima a cara muito perto e pestaneja, cansado.

— Poing! — grita Marco. Ao mesmo tempo, o punho fechado aterra no olho direito de José.

O riso explode como um balão de pastilha elástica. Ouve-se José a gemer. A mão apalpa a sobrancelha, o sangue goteja. Por baixo da pálpebra começa a nascer uma nódoa negra.

Marco, agora, está muito assustado.

Olha fixamente para a boca de José, que está puxada para o lado de uma forma tão esquisita, como se José estivesse a rir. Mas José não está a rir. Aperta os dentes convulsivamente. Por entre a fileira dos dentes a respiração sai tumultuosa. O olho magoado deve doer-lhe muito. Outro rapaz ter-se-ia atirado a Marco, mas José limitou-se a virar na direcção de Marco o olho são, que agora também está muito pequeno e a piscar. O olho acusa Marco. “Porquê?”, parece perguntar.

Marco não consegue entender. Era só uma brincadeira. Na série de televisão que acabou de ver, fazem coisas muito piores uns aos outros. E nunca há lágrimas.

Nunca se vê sangue.

Ninguém fica doente.

Ninguém fica mutilado.

Ninguém morre.

— Só queria brincar ao Bug’s Bunny — diz Marco. — Desculpa, José.

— Bug’s Bunny, Bug’s Bunny! — grita o filho do porteiro, que passa a correr junto ao muro e que apanhou as últimas palavras de Marco. Pára no tapete, olha para o muro, puxa os lábios para a frente para imitar um nariz a farejar e grunhe com uma voz grossa de porco:

— Então, até à próxima vez, meus queridos amigos. E seeeeempre alegres!

— Anda — diz Marco, pegando na mão de José e afastando-o do muro. Pelo caminho, sentiu a mão de José. É quente, palpitante, e acima dos nós dos dedos, está um pouco molhada pelas lágrimas que enxugou.

Eveline Hasler

Jutta Modler (org.)
Frieden fängt zu Hause an
München, DTV Junior, 1989
tradução e adaptação

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Coragem


É um sinal de coragem ser-se capaz de enfrentar os obstáculos com serenidade e de se adaptar às circunstâncias, que, ainda que desfavoráveis, são sempre oportunidades de amadurecimento. É, em contrapartida, um sinal de cobardia maltratar os mais fracos.

 

A pena pesada

Kassa Kena Gananina foi antigamente o herói mais poderoso, mais temido e mais amado do povo mandinga. Um só volteio da sua arma podia matar vinte antílopes. Um só rasgo de cólera nos olhos assustava tanto as flechas inimigas que todas caíam a seus pés como para lhe pedirem compaixão. Kassa Kena Gananina era, em verdade, «aquele a quem nada podia vencer». Era assim que lhe chamavam, tanto entre os homens como entre os animais da terra e os espíritos celestes.

Ora, uma noite, quando festejava uma jornada de caça carnívora, chegou à aldeia um viajante curvado sobre um cajado tão gasto pelos caminhos que mais parecia a bengala de um anão.

Este venerável vagabundo, depois de saciado com um gole de água e alimentado com um pedaço de carne, sentou-se sob a árvore da palavra e pôs-se a contar as maravilhas que encontrara ao longo da sua vida errante por países longínquos. Aconteceu, assim, falar de um certo pássaro, Konoba, que vivia numa floresta montanhosa para lá dos territórios comuns dos homens.

— Esse monstro — disse — é tão gigantesco que escurece o dia quando abre as asas. Pode, no entanto, tornar-se tão pequeno como um punho de mulher, mas então fica tão pesado que os baobás se enterram no chão com o seu peso. Sabe ser belo, se quiser, medonho, se o desejar. É invencível. Quanto mais poderoso é quem o enfrenta, maior prazer e facilidade tem Konoba em vencê-lo, porque o seu alimento preferido é a própria força dos seus inimigos.

Kassa Kena Gananina, ouvindo estas palavras, franziu o sobrolho e baixou a cabeça. Os companheiros, vendo-o assim pensativo, desafiaram-no com insistência a sobreviver a um combate leal contra um monstro daquela espécie. Os elogios depressa aqueceram o coração do herói. Levantou-se, foi a casa buscar a arma e, sem dizer palavra, saiu em direcção a essa montanha onde vivia o prodigioso dragão.

Caminhou sete dias e sete noites, com passos largos e a cabeça metida nos ombros, sem descansar. Na madrugada do oitavo dia, chegou à última aldeia antes da terra do Konoba. Perguntou onde vivia este inimigo dos homens que desejava combater. Um velhote, tremendo de susto só de ouvir o nome do monstro, descreveu-lhe o caminho que desembocava na floresta.

Kassa Kena Gananina, nesse caminho enevoado, andou até ao meio-dia sem encontrar caça ou caçador. Chegado a uma clareira, o sol desapareceu repentinamente e à sua volta fez-se uma grande penumbra. O céu encheu-se de um murmúrio semelhante ao que atravessa a terra quando as suas entranhas se movem. O herói ergueu a fronte. Viu o pássaro. Estava imóvel, à altura de uma árvore. A cabeça de bico amarelo e curvo pendia entre as asas, tão vastas como o céu visível. Os olhos eram parecidos com duas luas de cores variadas. As garras eram sabres curvos.

— Homem poderoso e belo, eu te saúdo — disse o dragão celeste com voz aguda. — A tua força parece-me tão saborosa como um fruto fresco. Acende em ti a ira e a cólera para que eu me sacie com elas!

Kassa Kena Gananina estendeu o punho armado à face trocista, saltou para um rochedo, fez voltear a sua massa de ferro. No primeiro volteio vazou o olho esquerdo do pássaro Konoba, no segundo cegou o olho direito, que chorou lágrimas de fogo. Então, num ruído ensurdecedor de asas, o monstro encolheu e num instante se reduziu a uma bola negra, que num longo silvo desceu do céu e caiu tão pesadamente que a terra tremeu e abriu fendas. Kassa Kena Gananina, de cabeça erguida para o grande Sol, soltou um grito de triunfo.

Viu uma pena a última liberta das asas evaporadas balancear-se no ar calmo sobre a sua cabeça. Quis agarrá-la, mas ela escapou-se-lhe e pousou-lhe na nuca. Então, o herói curvou as costas, titubeou, caiu de joelhos e deixou-se ir até enterrar o queixo na terra, coberto por esse fardo insuportável. Tentou arrancar essa pena muito pesada do cabelo, onde estava presa. Não o conseguiu e ficou grotescamente ajoelhado, resmungando e debatendo-se como uma raposa apanhada na armadilha.

Depois de ter gritado, pedido ajuda e, finalmente gemido, sem forças, durante muito tempo, veio o crepúsculo e com ele apareceu ao fundo da clareira uma mulher de idade. Trazia às costas uma criança pequena de pernas roliças, mas já em idade de andar. Kassa Kena Gananina chamou-a, agitando a mão sobre a erva e, com voz moribunda, pediu-lhe que fosse buscar todos os homens da aldeia para que o ajudassem a desfazer-se daquela pena tão pesada como um monte.

— O que te passou pela cabeça — disse ela — para precisares que sessenta e cinco guerreiros do meu clã venham tirar-te essa coisa da nuca?

Debruçou-se, soprou e a pena voou. Depois agarrou no pássaro Konoba, reduzido a uma bola no solo fendido, e estendeu-o à criança, que o agarrou e brincou com ele, rindo, entre as suas mãos ágeis. Os dois afastaram-se na paz do dia que acabava.

Kassa Kena Gananina ficou durante muito tempo sentado no chão, completamente estupefacto e desconcertado. Depois voltou à sua aldeia, onde contou a aventura à sombra da Árvore da Palavra. Quando disse como tinha sido liberto, fez-se um silêncio perplexo na assembleia. Então, um ancião sonolento bocejou ruidosamente e disse, levantando-se para se ir deitar:

— Para quem não sabe nada do pássaro Konoba, uma pena é uma pena — balbuciou. — Boa noite, senhores.

Kassa Kena Gananina beijou as mãos do sábio, e a partir desse dia entregou-se à conquista infinita de um bem mais precioso do que toda a força: a inocência.

Henri Gougaud
A Árvore dos Tesouros
Lisboa, Gradiva, 1998

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Delicadeza

A falta de compostura e as liberdades de linguagem tomaram o lugar da correcção e da delicadeza, que ainda prevaleciam há algum tempo atrás. A mentalidade permissiva que tem vindo a instalar-se, a par de um falso conceito de liberdade, tem criado situações de grave confusão, das quais os mais jovens são as principais vítimas.

 

As palavras cor-de-rosa e as palavras cinzentas

Um dia, sem se saber muito bem porquê, tudo aconteceu de repente: as palavras cor-de-rosa desapareceram do planeta. O que são palavras cor-de-rosa? São palavras delicadas, como Obrigado, Faça favor, Se não se importa, És tão importante para mim. Palavras tão doces que são como mel no coração.

Seria obra do Mago Cinzento, que só gostava do salgado, do picante e do amargo? Não… Eram os homens que, vá lá saber-se porquê, preferiam as palavras picantes, amargas e salgadas.

Naquela época, existiam na Terra lojas de palavras cor-de-rosa e lojas de palavras cinzentas. Os vendedores de palavras cor-de-rosa vendiam Amo-te, Penso em ti, Muito Obrigado, Se faz favor… Os vendedores de palavras cinzentas vendiam sobretudo Cabeça de alho chocho, Não me chateies, Cala o bico…

A princípio, comprava-se muito mais palavras cor-de-rosa do que palavras cinzentas. Os vendedores de palavras cor-de-rosa faziam bons negócios, e um perfume doce envolvia a Terra. Os vendedores de palavras cinzentas passavam os dias à espera, porque só tinham clientes uma ou duas vezes por ano, por alturas de grandes zangas.

No entanto, um dia, os homens puseram-se estranhamente a comprar palavras cinzentas. Havia uma crise de emprego, uma greve de corações. Os patrões compravam muitos Vá pregar a outra freguesia, Está bem arranjado, homem, Obrigado pelos seus serviços mas está despedido. Havia guerras entre famílias, divórcios, casais que já não se entendiam. Invejas entre irmãos, zangas… Comprava-se vários Já não gosto de ti, Acabou tudo. Nas lojas de palavras cor-de- rosa, muitos Obrigado, Por favor, Gosto de ti, ficavam por vender.

— Para o diabo com as palavras doces — diziam os homens. — São caras e não trazem nenhum benefício.

Os vendedores de palavras cor-de-rosa, desolados, já não sabiam onde as armazenar.

As lojas cor-de-rosa fechavam umas atrás das outras. Passa-se, Fechado por morte do proprietário, Liquidação total, Quinze palavras cor-de-rosa pelo preço de uma. Mas, mesmo a preços módicos, elas não atraíam ninguém. As lojas de palavras cinzentas, essas sim, prosperavam. Porque, e isso é bem conhecido, as palavras feias são contagiosas. Se no recreio te lembrares de lançar uma, receberás dez em troca! Abriram-se mesmo lojas especializadas em palavras feias, risos grosseiros, insultos horríveis. E os vendedores cinzentos trabalhavam dia e noite para descobrirem jóias raras, as palavras mais horríveis e mais maldosas!

Como receavam ficar sem provisões, como costuma acontecer em tempo de guerra, as pessoas começaram a fazer conservas de palavras cinzentas. Congelaram-nas às dúzias, empilharam-nas nos armários da cozinha, nos guarda-fatos, debaixo das camas.

E, upa, ao menor atrito, ao mais pequeno gracejo, à mais insignificante discussão, ia-se à reserva: Cala o bico, Vai ver se chove, És um atraso de vida, Ó gordefas, e assim por adiante!

Os aniversários tinham lugar no meio dos piores insultos. Cantarolava-se Infeliz aniversário, infeliz aniversário, lançando-se uma bomba de palavras feias no meio da festa. Entre os adultos, para se festejar a passagem do ano, comia-se as passas e bebia-se sumo de peúgas pretas, no meio de gracejos do género:

Desejo-te um ano péssimo… e, principalmente, muito pouca saúde!

E, quando se abriam as prendas, era um concerto de gemidos:

Que feio! Como é que tiveste uma ideia tão má? É, de facto, o presente que eu menos queria receber!

Antes das aulas, as crianças corriam para as lojas cinzentas e enchiam os bolsos de palavras feias para a hora do recreio. Antes das férias, os adultos também lá iam, para encherem as malas de palavras cinzentas, de piadas estúpidas, que atiravam pela janela na auto- estrada, entre as sandes e o café, durante os engarrafamentos: Ó aselha, vai mas é plantar batatas!

À face da Terra, a atmosfera era glacial. O Sol, que tem medo das grosserias e dos arraiais de pancada, recusava-se agora a brilhar. Lembrava-se de outros tempos, em que era acolhido de braços abertos:

Está bom tempo! Que maravilha! Obrigado, amigo Sol… Oh, meu Deus, como gosto do Sol…

Em vez disso, ouvia-se agora:

Que calor horrível! Bolas! Kêkalôr!

Então as nuvens invadiram o céu, e a terra mergulhou num período glacial. Toda a gente tinha frio. As pessoas recusavam-se a despir-se, já não faziam festas umas às outras, já não nasciam bebés. A Terra estava tão triste, sem flores nem palavras cor-de-rosa!

No entanto, algures no mundo, um rapazinho não queria habituar-se às palavras cinzentas. Talvez por, no seu bolso, ter ficado uma palavra cor-de-rosa meio gelada. “Eu”, dizia Pedro, “não quero um mundo onde mais ninguém canta; onde não se diz bom dia, nem obrigado, onde há sempre tanto frio. Vou ver se encontro o Sol.” O rapazinho caminhou durante muito tempo, escalou colinas geladas, pequenas e grandes montanhas, vulcões extintos. Por fim, ao cabo de meses e meses de árdua caminhada, chegou exausto e transido à casa das nuvens.

— Toc, toc — bateu. — Venho à procura do Sol.

— Oh, oh! — exclamou a nuvem-chefe, que se tinha apoderado do céu cinzento. — Olhem só para isto… Um fedelho ridículo que vem à procura do senhor Sol! O Sol não aparece a ninguém! Desde que as palavras cinzentas tomaram o poder, somos nós, as nuvens pardacentas, que somos os chefes.

Dito isto, virou as costas e fechou-lhe a porta na cara.

O rapazinho sentou-se, confuso. Como responder? Não trazia no bolso uma única palavra cinzenta. Então, começou a chorar. A nuvem olhou para ele surpreendida: já há muito tempo que não via ninguém chorar! Naquele universo glacial, todos os olhos estavam gelados, todos os corações estavam frios.

— Pára com isso imediatamente! — gemeu a nuvem. — Se não, vou fazer cair um aguaceiro. (Porque as nuvens têm habitualmente a lágrima ao canto do olho.)

Finalmente comovida, tomou, lá no íntimo, a decisão de o ajudar.

— Olha — disse-lhe. — Aquela bolinha amarela ali em baixo é o Sol.

Pedro abriu os olhos e viu de facto uma bola de bilhar perdida na imensidão do azul: era o Sol, que estava a desaparecer por causa dos maus-tratos.

Já no limite das forças, o rapazinho caminhou em direcção da pequena bola amarela.

— Bom dia — cumprimentou. — Vim buscar-te. Tudo se tornou cinzento na Terra. Temos frio, sentimo-nos mal. Nunca nos rimos, nunca dizemos palavras delicadas. Tens de voltar.

E o Sol e o rapazinho começaram ambos a suspirar, pensando naquela “época cor-de-rosa”.

— Tens de voltar — insistiu Pedro.

— Vou, a título de experiência — resmungou o Sol. — Mas atira primeiro para a Terra estas palavras cor-de-rosa. Assim, o meu regresso será mais agradável.

O Sol deu ao menino um conjunto de palavras cor-de-rosa: Por favor, É simpático da tua parte, Muito obrigado, Gosto muito de ti, Amor da minha vida, Se não se importa, etc. O rapazinho meteu-as nos bolsos, na boca, no boné, nas meias, em todo o lado. Todas as que ele conseguisse levar.

Regressou à Terra e distribuiu-as ao acaso.

De repente, nos engarrafamentos, as pessoas começaram a desdobrar os papelinhos cor-de-rosa: Faz favor de passar, Que tempo tão bonito, não acha?, Pode ir à minha frente, não tenho pressa nenhuma…

Nos recreios, começaram a ouvir-se novamente risos simpáticos e palavras como És o meu melhor amigo, Claro que podes entrar no jogo…

Em casa, as crianças voltaram a usar palavras cor-de-rosa: Obrigada, mamã, Por favor, Desculpa, não fiz de propósito…

Nos aniversários, cantava-se alegremente e, nas festas da passagem do ano, formulava-se votos de felicidade e de saúde.

O Sol voltou a brilhar e a deitar-se todas as noites na sua nuvem cor-de-rosa. E, juro-te, os vendedores de palavras cor-de-rosa começaram a fazer fortuna! Abriram-se mesmo outras lojas especializadas em sorrisos, em suspiros de satisfação, em delicadeza, em cortesia, em civismo… Foi como mel no coração.

Quanto às palavras cinzentas, decidiram, diante de tanta felicidade, desarvorar com quantas patas cinzentas e peludas tinham. E, quando alguma se lembrava de vir meter o nariz, garanto-vos que não ficava por muito tempo.

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Fortaleza


A vida tem reviravoltas súbitas e as dificuldades surgem quando menos se espera. Mas é um erro responder com agressividade ou cair no desânimo. A atitude correcta é procurar compreender o sentido dessas dificuldades e não se deixar intimidar por elas.

 

A cor dos olhos

Naquele tempo, que não era como o tempo de hoje, os leões já tinham quatro patas mas, tal como os elefantes, não podiam meter-se por dois caminhos ao mesmo tempo!

Naquele tempo

                     naquela aldeia

                                              havia Fati e Issa.

Fati dormia deitada numa esteira, sempre de barriga para baixo. Durante esse tempo, Issa sonhava deitado de costas, na cabana da mãe.

Uma manhã, Issa convidou Fati para ir com ele à pesca, no grande riacho.

― Fati, vens ou não pescar?

― Vou, mas… e se o peixe não morde?

― Ficamos à espera.

Partiram com ele à frente, como sempre.

Fati, que era cega, seguia-lhe os passos.

A mãe dela, como todas as mães da aldeia, sabia fazer um bom molho com sementes e também uma mistura saborosa de inhame. O pai conhecia os remédios contra as serpentes e os génios malfazejos, e contra os anões ruins do mato que só fazem mal!

Mas nem o pai nem a mãe sabiam transformar os olhos que não vêem em olhos que vêem!
Fati e Issa caminhavam num estreito carreiro vermelho.

Issa viu pássaros tecelões dar reviravoltas perto das folhas de um embondeiro.

Fati ouviu-os chilrear.

Tinha posto na cabeça um lenço para se proteger um pouco. Tal como Issa, sentia o sol a queimar-lhe os ombros como se fosse uma fogueira no mato.

Não sabia nada da forma zombeteira das sombras, sempre um pouco maiores, mas conseguia adivinhar a grande boca do sol que sugava o céu com gulodice.

Chegaram ao riacho.

― A água está bem desperta ― gritou Issa.

Fati mergulhou o dedo e exclamou:

― Esta água está toda molhada!

Issa preparou uma linha para Fati e outra para ele.

Deitaram-nas à água. Passou algum tempo.

Issa inclinou-se para Fati e murmurou-lhe, quase a morder-lhe a orelha:

― Não te mexas, vou andar alguns passos.

― Porquê?

― O sol está muito forte. Talvez encontre uma jujubeira que nos dê sombra.

Afastou-se, apressado, para fazer algo que ninguém poderia ter feito por ele!

Nada acontece sem se fazer anunciar…

Fati, com a linha entre os dedos, estava tão imóvel como uma velha termiteira, quando sentiu um abanão na mão. Quando sentiu o segundo abanão, foi como se estivesse à espera dele, precisamente naquele momento. Puxou com um gesto seco e, quando ouviu a água a salpicar, não teve dúvidas: era mesmo um peixe que tinha mordido o isco e que ela estava a pescar. Com cuidado, para não assustar nada nem ninguém, levantou-se, puxando sempre a linha com a mão.

Agarrou o pequeno peixe que dançava agarrado ao isco.

Disse em voz alta, para si própria: “É de certeza uma carpa, uma carpa pequena e linda.”

― Uma carpa que preferiria voltar para a água em vez de assar ao sol — respondeu-lhe uma voz.

― És tu, Issa?

― Não é o Issa, sou eu ― respondeu-lhe a carpa.

― Mas quem está a falar? ― perguntou Fati.

Não obteve resposta. Pensou que tinha sonhado.

Com cuidado, tirou o peixe do isco.

― Ufa! Obrigado. Assim está melhor ― ouviu.

― Mas de quem é esta voz que não conheço?

― É minha. Sou a carpa que acabas de pescar, não vês?

― Não. Tenho olhos mas não vejo.

A carpa, que era menos medrosa do que uma tartaruga e mais faladora do que um quimbanda lisonjeador, continuou a falar.

― Será que me podes dizer o teu nome, tu que me pescaste?

― Fati.

― Fati, se voltares a pôr-me na água do riacho, posso dar-te o mais belo dos presentes.

― O que é o mais belo dos presentes?

― É o que quiseres… exactamente o que quiseres.

― Não existe o mais belo dos presentes.

― Existe, sim!

Fati pôs-se a rir e disse à carpa:

― Pequeno peixe, podes ofender o génio da água com as tuas mentiras.

― Não estou a mentir.

― Então faz-me ver o mundo com os meus dois olhos.

― O mundo inteiro?

― O mundo inteiro.

Sem pensar duas vezes, o pequeno peixe disse a Fati:

― Pega em duas das minhas escamas, e põe uma em cada olho.

― Depois…

― Depois, nada. É tudo. Verás o que quiseres ver.

Fati pegou em duas escamas e fez o que a carpa lhe tinha dito. Então, começou a ver de verdade, e os seus dois olhos tocaram o mundo.

― Agora, podes ver quase tudo ― disse-lhe a carpa.

― Porquê “quase”?

― Podes ver tudo, excepto os teus olhos. Com os próprios olhos, ninguém pode ver os seus próprios olhos.

Fati pôs o pequeno peixe no riacho e ele continuou a viver como um peixe na água.

Issa chegou.

Fati, que nunca o tinha visto, viu-o aproximar-se.

― Issa, estou a reconhecer-te.

― É lógico, porque me conheces.

― Reconheço-te com os meus olhos, não apenas com os ouvidos!

Issa tinha parado a dois passos de Fati. Olhava-a bem de perto, e assim podia ver-lhe os olhos.

Exclamou:

― Mas o que é que se passa? Lavaste os olhos no céu?

― E porque dizes isso?

― Fati, os teus olhos estão azuis como o céu. Continuas negra, mas tens os olhos cor do céu!

Fati contou-lhe tudo.

Quando chegaram à aldeia, Fati ficou espantada por ver um só mundo com os dois olhos.

No dia seguinte, de manhã, ouviram a aldeia a murmurar.

Issa, que continuava a dar-lhe a mão, escutou as vozes ao mesmo tempo que ela.

Viram chegar as três co-esposas do pai de Fati, e outras mulheres, e alguns homens. Tinham a boca cheia de maldades e gritavam. A seguir, chegaram os da aldeia. Eram piores do que animais loucos do mato. Gritavam:

― Bruxa!

― Fati, vai-te embora!

― Não passas de uma bastarda do céu!

― Bruxa azul! Deixa-nos, vai-te embora para sempre, tu e os teus olhos azuis!

― Excremento de abutre!

Puseram-se a atirar-lhe pedras e Fati não encontrou outra solução senão fugir. Issa, que
tentara defendê-la, teve de fazer o mesmo.

Depois de uma longa corrida, chegaram ao fundo, ao fim do fim, um pouco mais longe do que o horizonte.

― Fati, eu gosto de ti.

― Não tens medo dos meus olhos?

― Fati, eu gosto de ti.

Tinham-se sentado frente a frente, à sombra de uma jujubeira.

Fati perguntou:

― Será que fechando os olhos, acabamos com a maldade?

― Não… não se acaba com nada. Se fechares os olhos, nem sequer acabas com as cóleras do mato.

Calaram-se. Issa tomou as mãos de Fati nas suas. Fati tinha dois olhos para ver e chorar.

Murmurou-lhe:

― Eles têm medo. Estão cativos do medo que têm, e o medo faz esquecer o coração…

Nesse dia, nesse tempo, que se parecia muito com o tempo de hoje, Fati e Issa tinham o coração ferido como uma velha cabaça.

Levantaram-se e afastaram-se ainda mais da aldeia, talvez para encontrar a fonte dos quatro ventos do céu, aqueles que fazem as mesmas cócegas em todas as cores do mundo.

Muitas estações das chuvas deram lugar a muitas estações secas.

E ontem, na aldeia, um grande pássaro negro pousou na bela árvore vermelha florida. Era um calau.

Um calau negro de olhos azuis. Sim, negro de olhos azuis! Todos o acharam belo.

Este calau era um sinal. Logo que parou na grande árvore da aldeia, Fati e Issa chegaram.

Fati sorria tal como Issa. Foi ela quem disse:

― Bom dia, estávamos tão longe há tanto tempo… eis-nos aqui, os dois.

― Bom dia!

― Bom dia…

Foram muitos os que lhes ofereceram a água das boas-vindas.

No dia seguinte, Issa começou a construir a cabana deles.

Tal como acontecera com os pais deles, foi na sua aldeia que tiveram os filhos.

E foi assim.

Foi o quimbanda quem mo disse.

Yves Pinguilly, Florence Koenig
La couleur des yeux
Paris, Autrement Jeunesse, 2001
tradução e adaptação

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Compaixão

As pessoas têm tendência para se alhear dos sofrimentos dos outros ou para os minimizar. Aqueles que vivem sem dificuldades esquecem que há pessoas em situação de grande pobreza, e aqueles que têm saúde não apoiam os que estão doentes. É necessário aprender-se a sentir compaixão.

 

 

Um gato debaixo do pinheiro de Natal


Porque a vida habitava nela, a possuía, a menina reconhecia a morte inscrita no reverso de qualquer momento de felicidade, de qualquer instante feliz. Brincava no cemitério como se fosse um jardim.

— O gato cinzento está com mau aspecto — observa Laura, empoleirada no alto do pequeno muro que separa o jardim do baldio. Mas o pai está a cortar a sebe e não ouve o que ela diz.

— O gato cinzento está com mau aspecto; acho que está doente… — insiste ela.

A mãe não ouve, ocupada também a arrancar as ervas do passeio, o que Laura, aliás, também devia estar a fazer para a ajudar.

Então Laura repete para si, em voz baixa e grave:

— Parece que o gato cinzento vai morrer.

O gato sem nome nem casa tem o pelo descaído e o salto lento; não liga aos pássaros, já não tem fome, foge do sol e abriga-se entre dois pés de urtigas.

— É preciso chamar o veterinário — sugere Laura.

— Nem penses! Ele tem mais que fazer do que tratar os gatos vadios.

Desta vez, a mãe sempre resolvera responder.

— Não é vadio, porque eu acolhi-o e gosto dele — retorquiu Laura.

Laura só faz o que lhe apetece. Amanhã, a caminho da escola, vai bater à porta do veterinário, como fez da outra vez por causa de um passarinho caído do ninho e de um ouriço-cacheiro meio esmagado por uma bicicleta. É um veterinário idoso muito simpático, que não a manda dar uma volta.

“Amanhã vou esconder o gato na minha pasta, está decidido.”

No dia seguinte, não consegue encontrar o gato em lado nenhum e são já mais que horas de ir para a escola. Laura vai então sem o gato. Bate à porta do veterinário para pedir um conselho.
Mas é a mulher que vem à porta e lhe dá uma resposta seca:

— O meu marido está inundado de trabalho.

“Inundado”? O rio inunda as terras; a banheira, quando demasiado cheia, inunda o quarto de banho… mas um veterinário “inundado”? Então, quem há-de aconselhar Laura? Não quer que se riam dela, não quer ser motivo de troça.

Durante o recreio do meio-dia, Laura escapuliu-se do pátio. Se a professora soubesse! Se a mãe a visse! Ela sabe que pode ser suspensa por três dias: “Que falta de responsabilidade!”. Ela bem sabe, mas o gato cinzento está com tão mau aspecto…

Que surpresa! É um rapaz novo que vem atender.

— O meu pai vai aposentar-se e sou eu que vou substitui-lo — explica com gentileza, ao ver o espanto de Laura.

Ela gaguejou ao falar do gato e o veterinário compreendeu num ápice:

— Esta tarde, Laura, não tenho muito trabalho, e por isso vou dar uma volta para esse lado.

Depois das quatro horas, ao regressar da escola, Laura encontrou um bilhete que a mãe lhe leu:

Lamento! Tive de ajudar o teu gato a partir sem sofrer demasiado… Foi pena, mas era melhor para ele. Quando quiseres…

Até breve, Laura!

Sérgio

Laura ouviu a mãe falar a sério de eutanásia, de injecção, e concluir por fim:

— Tens um amigo novo. Sérgio é um nome estranho, que me faz pensar no tecido do casaco que eu usava quando tinha a tua idade e que…

Mas ela não tinha vontade de ouvir as recordações da mãe. Foi chorar sozinha para cima do pequeno muro. Perguntou a si mesma para onde teria Sérgio levado o gato morto. Pareceu-lhe tê-lo visto, cinzento e de pêlo brilhante, escapar-se por entre as ervas altas; bem sabe que foi uma ilusão. Depois, o pintarroxo-que-tinha-medo-do-gato voltou para o terraço e Laura riu-se das suas bicadas ávidas. Saltou rapidamente do seu posto de observação para ir buscar migalhas frescas.

Junto do pinheiro de Natal, está um presente que dá saltos. Contrariamente ao habitual, a mãe sugere que se abram as prendas de Natal antes da missa do galo. Laura nem quer acreditar. Há muitas coisas a mudar nesta casa, de há uns tempos para cá. Talvez desde que o pai “esteve às portas da morte”, como diz a avozinha. Laura ficou a saber que isso significa escapar à morte. Terá ela suspeitado da gravidade do estado de saúde do pai, encontrado desmaiado no jardim enquanto ela estava na escola?

No entanto, ele está aqui esta noite, o pai, bem vivo e a rir-se, quando a mãe mostra à Laura a prenda que mexe: um gatinho cinzento.

— Parece filho do gato cinzento. Amanhã vou logo apresentá-lo ao Sérgio.

Colette Nys-Mazure
Contes d’Espérance
Paris, Desclée de Brouwer, 1998
tradução e adaptação

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Obediência

A vontade de se evidenciar foi sempre muito forte nos adolescentes, que se divertem com o perigo e com a transgressão. De lamentar que não se lembrem de que, para muitos, isso levou à doença e à morte. A atitude de desobediência face às orientações dos professores costuma ter como resultado a falta de aproveitamento e consequente ignorância. O que é igual a um futuro sem perspectivas.

 

 

O tesouro de Clara

Clara vive no Brasil.

Não possui quase nada. Tem pele de âmbar e cabelos pretos. Veste uma t-shirt grande e, nos pés, traz sandálias de borracha, faça chuva ou sol.

Clara tem doze anos. Trabalha num orfanato. A sua função é limpar a cozinha e, de vez em quando, pode fazer de mãe dos mais pequeninos. E gosta muito disso.

À quinta-feira, é o dia de descanso de Clara. É então que sai…

A cinquenta metros, perto de um banco que está fechado, estão todos juntos à espera dela. Olham uns para os outros, sorriem, regalam- se de antemão.

São os seus amigos: Lúcia, Ângelo e Ana. Não têm casa e dormem onde calha, nas ruas do Rio.
Lúcia tem oito anos. Os seus cabelos são como ninhos de andorinha. Está sempre a rir e a mexer as mãos e os pés.

Ângelo é pequeno mas muito forte para os seus onze anos. Um dia, conseguiu mesmo levantar uma bicicleta. Está sempre descalço. Caminha sem dificuldade sobre as pedras. Canta as canções escritas por aqueles que viajaram e viram muitos países. Canta muito bem, o Ângelo.

Ana é a mais bem-comportada. Não fala muito. Tem doze anos, tal como Clara, que conheceu há muitos anos naquele sítio, diante do banco.

Por vezes, Lúcia, Ângelo e Ana vão trabalhar na produção do algodão. Outras vezes, varrem as ruas. Ou então, os pescadores chamam-nos à praia para puxarem as redes. Depois, encontram-se, sonham em conjunto, com o nariz no ar, a olhar para as nuvens e a contar os dias até quinta-feira.

Ângelo, Lúcia e Ana têm muitos amigos na rua. Alguns respiram uma cola contida em garrafas de plástico, o que os faz sorrir sem razão nenhuma.

Quando Clara encontra os amigos, vão todos a correr para a praia. Atiram areia à cara uns dos outros. Cantam a cantiga Pescadores dos Três Mares e comem o pão que os turistas lhes dão. Lúcia, Ângelo e Ana não querem daquela cola que faz esquecer os problemas.

Eles têm Clara. Clara é a mercadora de sonhos. Não é que os venda realmente; em vez disso, dá-os de prenda.

Clara sonha muito alto com lugares maravilhosos. Praias compridas e douradas, barcos, papagaios de papel e papagaios de verdade.

Montanhas encantadas cobertas de gelo e criaturas estranhas, onde sopra um vento mágico, do norte. Um vento que te adormece e te acorda cem anos mais tarde.

Cidades futuras cheias de luz. De carros que voam e de parques de estacionamento floridos. E de um fogo de artifício feito de pequenos comboios brilhantes, de pizzarias e de arranha-céus espelhados.

E Clara fala-lhes de um Rio sem adultos, onde só há crianças gentis e alegres, que têm os dentes todos. Que saltam sobre os carros e invadem as lojas de bombons.

Ela oferece-lhes vales inteiros de árvores carregadas de frutos, com quatro sóis amarelos no meio do céu e com camponeses ricos, vestidos de comerciantes.

E Clara transforma os monumentos antigos da cidade em palácios das Mil e Uma Noites, e os gatos que passam em tigres da Malásia.

Clara conta os seus sonhos durante horas.

Ela estudou quatro anos na escola e lê todos os livros que encontra.

Agora, é tarde. Clara levanta-se, sacode a areia das mãos e volta para o orfanato. Os amigos escutaram-na, boquiabertos. Riram e choraram. E os olhos deles arregalar-se-ão de novo na próxima quinta-feira.

Para eles, não há cola.

Eles têm Clara.

E muitos sonhos bons para viverem ainda…

Béatrice Alemagna
Le trésor de Clara
Paris, Autrement Jeunesse, 2000
tradução e adaptação

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Tolerância


Ser-se capaz de aceitar a diferença é um sinal de maturidade. Aqueles que são diferentes nem por isso são inferiores. É um erro levantar-se barreiras onde deveria existir o diálogo. Actos hediondos têm sido cometidos ao longo dos tempos por governantes cegos pela própria intolerância e por falsas ideias de superioridade que se estenderam às multidões como um rastilho de pólvora.

 

A estrela de Erika

Nota da autora

Em 1995, cinquenta anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial, encontrei a mulher de que fala esta história. O meu marido e eu estávamos sentados na borda de um passeio em Rothenburg, na Alemanha. Observávamos uns trabalhadores a limparem as ruínas do telhado da Câmara. Na noite anterior, um tornado tinha-se abatido sobre esta bonita aldeia medieval. Havia entulho um pouco por todo o lado. Um velho comerciante disse-nos que os estragos causados por este tornado se assemelhavam aos da última ofensiva dos Aliados durante a guerra. O comerciante entrou na sua loja, e uma senhora, sentada perto de nós, apresentou-se como sendo Erika.

Perguntou-nos se tínhamos vindo fazer turismo naquela região. Quando lhe disse que vínhamos de Jerusalém, onde passáramos duas semanas a fazer pesquisas, confessou- nos, com um suspiro, que desejava muito lá ir mas que não tinha dinheiro para a viagem. Ao ver uma estrela de David pendurada ao seu pescoço, disse-lhe que, no regresso de Israel, tínhamos passado pelo campo de concentração de Mauthausen, na Áustria. Erika confessou-nos que, um dia, tinha tentado visitar o campo de Dachau, mas que não conseguira franquear a porta.

Depois, contou-nos a sua história…

Entre 1933 e 1945, seis milhões de homens e mulheres do meu povo foram mortos. Muitos foram fuzilados. Muitos morreram de fome. Muitos foram incinerados nos fornos ou asfixiados nas câmaras de gás. Eu escapei.

Nasci em 1944.

Não sei o dia.

Não sei como me chamava ao nascer.

Não sei em que cidade nem em que país nasci.

Não sei se tive irmãos ou irmãs.

O que sei é que, apenas com alguns meses, escapei ao Holocausto.

Imagino muitas vezes como teria sido a vida dos membros da minha família durante as últimas semanas que passámos juntos. Imagino o meu pai e a minha mãe, despojados de todos os seus bens, forçados a abandonar a casa, enviados para o gueto.

Talvez depois tenhamos sido expulsos do gueto. De certeza que os meus pais tinham pressa de deixar o bairro rodeado de arame farpado para onde tinham sido relegados, de escapar ao tifo, ao excesso de pessoas, à imundície e à fome. Mas teriam alguma ideia do local para onde estavam a ser enviados? Ter-lhes-iam dito que iam para um local mais acolhedor, onde teriam comida e trabalho? Terão chegado até eles os rumores sobre os campos da morte?

Pergunto-me o que terão sentido quando os conduziram à estação, juntamente com centenas de outros judeus. Amontoados num vagão de transporte de animais. De pé, uns contra os outros, por falta de espaço. Terão entrado em pânico quando ouviram correr os ferrolhos?

De aldeia em aldeia, o comboio deve ter atravessado paisagens campestres estranhamente poupadas ao terror. Durante quantos dias ficámos naquele comboio? Quantas horas os meus pais passaram apertados um contra o outro?

Imagino que a minha mãe devia ter-me bem encostada a ela para me proteger dos maus cheiros, dos gritos, do medo, que reinavam neste vagão lotado. Tinha de certeza compreendido que não íamos para um lugar seguro.

Pergunto-me onde estaria exactamente. No meio do vagão? O meu pai estaria junto dela? Ter-lhe-á dito que fosse corajosa? Terão falado do que iam fazer?

Quando teriam tomado aquela decisão? Será que a minha mãe disse “Desculpa. Desculpa. Desculpa.”? Terá aberto a custo um caminho por entre aquela mole humana até à janela do vagão? Terá murmurado o meu nome ao embrulhar-me num cobertor bem quente? Terá coberto a minha cara de beijos e dito que me amava? Terá chorado? Rezado?

Logo que o comboio abrandou, ao atravessar uma aldeia, a minha mãe deve ter espreitado pela fresta do vagão. Ajudada pelo meu pai, deve ter afastado o arame farpado que ocultava a abertura. Deve ter esticado os braços para a luz pálida do dia. A única coisa que sei com toda certeza foi o que aconteceu a seguir.

A minha mãe atirou-me pela janela do comboio.

Atirou-me para cima de um pequeno quadrado de relva, junto de uma passagem de nível. Havia pessoas à espera que o comboio passasse; viram-me cair do vagão de carga. No caminho que conduzia à morte, a minha mãe lançou-me à vida.

Alguém pegou em mim e levou-me para casa de uma mulher que se ocupou de mim. Que arriscou a vida por mim. Calculou a minha idade e atribuiu-me uma data de nascimento. Decidiu que me chamaria Erika. Deu-me um lar. Alimentou-me, vestiu-me, mandou-me à escola. Fez tudo por mim.

Casei aos vinte e um anos com um homem maravilhoso. Aliviou muita da tristeza que me assaltava com frequência, percebeu o meu desejo de pertencer a uma família. Tivemos três filhos, que hoje têm os seus filhos também. No rosto deles, reconheço o meu.

Dizia-se outrora que o meu povo seria um dia tão numeroso como as estrelas do céu. Entre 1933 e 1945 caíram seis milhões de estrelas do céu. Cada uma delas corresponde a um membro do meu povo, cuja vida foi rasgada, cuja árvore genealógica foi arrancada.

A minha árvore lançou raízes.

A minha estrela ainda brilha.

Ruth Vander Zee; Roberto Innocenti
L’étoile d’Erika
Toulouse, Milan Jeunesse, 2003
tradução e adaptação

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Justiça

Existem graves situações de injustiça social, criadas por aqueles que não têm escrúpulos em enriquecer à custa da pobreza de muitos. Quando se trata de dinheiro, os homens facilmente esquecem os seus princípios morais, embora gostem de exibir em público uma imagem de respeitabilidade.

 

 

A Sombra

Nos países tropicais o sol queima de uma forma terrível! As pessoas ficam trigueiras como o acaju e até escuras como os negros.

Vindo do seu país frio, chegara a uma destas regiões quentes um sábio que julgava poder passear ali como na sua terra; mas cedo se persuadiu do contrário. Viu-se obrigado, como qualquer pessoa razoável, a fechar-se durante o dia em casa. Esta parecia sempre adormecida ou abandonada. De manhã à noite, o sol brilhava por entre as casas altas, ao longo da pequena rua onde ele morava. Era insuportável!

O sábio dos países frios, que era ainda jovem, julgava-se uma fornalha ardente; mas emagrecia cada vez mais e a sua sombra estreitava-se consideravelmente. O sol prejudicava-o. Por isso ele só se reanimava depois do poente.

Que prazer, então! Logo que, no quarto, se acendia uma vela, a sua sombra estendia-se por toda a parede e estirava-se o mais possível até ao tecto, como que a recuperar forças.

O sábio, por seu lado, ia até à varanda, deitava-se, e, à medida que as estrelas apareciam no céu admirável, sentia-se a reviver pouco a pouco. Em breve surgia gente em todas as varandas, pois até as pessoas cor de acaju precisam de ar! Como tudo se animava então! Os sapateiros, os alfaiates, todos se espalhavam pela rua. Viam-se mesas, cadeiras e milhares de luzes. Um falava, outro cantava; passeava-se; as carruagens circulavam; passavam burros fazendo soar as campainhas; era lançado à terra um morto, ao som de cânticos sagrados; os garotos atiravam petardos; os sinos das igrejas repicavam; numa palavra, a rua estava bastante animada.

Só uma casa, aquela que estava situada em frente da do sábio, é que não dava sinal de vida. Mas morava lá alguém, pois, na varanda, desabrochavam flores admiráveis, o que necessariamente indicava que alguém as regava. À noite, também se abria a porta, mas, lá dentro, de onde saía uma música suave, estava escuro. O sábio achava aquela música incomparável, mas isso talvez fosse produto da sua imaginação, pois de boa vontade acharia tudo incomparável nos países quentes — se o sol não brilhasse sempre. O proprietário da casa em que morava dissera-lhe que ignorava em absoluto o nome e a condição do locatário daquela casa, e, quanto à música, declarou-a horrivelmente enfadonha.

— É alguém que estuda continuamente o mesmo trecho sem conseguir aprendê-lo — disse. — Que perseverança!

Uma noite, o sábio despertou e julgou ver um clarão estranho na varanda da casa vizinha; as flores brilhavam como chamas e, no meio delas, estava uma rapariga alta, esbelta e encantadora, que brilhava tanto como as flores. Esta luz intensa feriu os olhos do nosso homem que se levantou de chofre. Foi afastar a cortina da janela, para observar a casa em frente; mas tudo desaparecera. Apenas permanecia entreaberta a porta que dava para a varanda, e a música continuava a ouvir-se. Havia bruxedo ali dentro! Quem habitava ali? Por onde seria a entrada? O rés-do-chão era todo constituído por lojas; em parte alguma se via corredor nem escada que conduzisse aos andares superiores.

Uma noite, estava o sábio sentado na varanda; por detrás dele, no quarto, brilhava uma vela; era, pois, muito natural que a sua sombra se desenhasse na parede do vizinho. Ela destacava-se entre as flores e repetia todos os movimentos do sábio.

«Creio que a única coisa que ali vive, em frente, é a minha sombra: como ela se instala elegantemente entre as flores, junto à porta entreaberta! Se pudesse entrar, ver o que se passa e vir-mo contar!»

— Vamos! — convidou, a gracejar. — Ao menos mostra que serves para alguma coisa: entra!

E fez com a cabeça um sinal à sombra, e a sombra repetiu o sinal.

— Vai! Mas não fiques muito tempo por lá!

A estas palavras o sábio levantou-se e a sombra fez o mesmo que ele. Voltou-se o sábio e a sombra voltou-se igualmente. Mas alguém que tivesse prestado atenção teria visto que a sombra entrava, pela porta entreaberta, em casa do vizinho, no momento em que o sábio, por sua vez, entrava no seu quarto, correndo atrás de si o cortinado.

No dia seguinte, quando saiu, para ir tomar o café e ler os jornais exposto ao sol, exclamou de repente: — Que é isto? Onde está a minha sombra? Terá realmente partido ontem à noite e ainda não terá vindo? Que aborrecimento!

Grande era a sua contrariedade, não por causa da sombra ter desaparecido, mas porque ele conhecia, como toda a gente nos países frios, a história de um homem sem sombra, e, se um dia, quando regressasse, contasse a sua própria história, acusá-lo-iam de plagiário, acusação que de nenhum modo merecia. Resolveu, pois, não falar nisso a ninguém. E assim fez.

À noite, voltou à varanda, depois de ter colocado a luz bem por trás dele, para que a sua sombra voltasse; mas foi em vão que se estendeu, se encolheu e repetiu a mesma palavra: «Vem! Vem!». A sombra não apareceu.

Esta separação atormentou-o muito; mas, nos países quentes, tudo cresce depressa, e, ao fim de oito dias, com grande prazer, notou que das suas pernas, enquanto passeava ao sol, saía uma nova sombra. Provavelmente ficara lá uma raiz da antiga. Ao fim de três semanas, tinha uma sombra decente, que, em viagem para os países do Norte, cresceu de tal forma que o nosso sábio até se contentaria com metade.

De regresso ao seu país, escreveu vários livros sobre o que o mundo tem de verdadeiro, de belo e de bom: e muitos anos se passaram assim.

Um dia, estava ele sentado no quarto, quando alguém bateu à porta.

— Entre! — disse.

Mas ninguém entrou. Foi abrir e viu um homem muito alto e muito magro, correctamente vestido e com ar distinto.

— A quem tenho a honra de falar? — perguntou o sábio.

— Já calculava que o senhor não me reconhecesse — respondeu o homem, delicadamente. — É que eu fiz-me corpo; tenho carne e uso fato. Não reconhece a sua antiga sombra? O senhor julgou que eu nunca mais voltaria. Tive muita sorte, depois que o deixei; estou rico e tenho, por conseguinte, meios para me resgatar.

E fez tilintar um molho de berloques ligados à pesada corrente de ouro do relógio, enquanto os seus dedos, cobertos de brilhantes, lançavam mil faíscas.

— Ainda não estou em mim! — disse o sábio. — O que significa isto?

—Tudo isto é extraordinário, mas o senhor não é também um homem extraordinário? E eu, sabe-o muito bem, segui, desde a infância, os seus exemplos. Achando-me amadurecido para fazer sozinho o meu caminho na vida, o senhor lançou-me nela, e eu colhi um grande êxito. Senti desejo de o ver antes da sua morte e de, ao mesmo tempo, visitar a minha pátria. Bem sabe, a pátria ama-se sempre. Como sei que tem outra sombra, cumpre-me perguntar-lhe agora se lhe devo alguma coisa a ela ou ao senhor. Faça favor de dizer.

— És então tu! — respondeu o sábio. É extraordinário! Nunca julgaria que a minha antiga sombra regressasse sob a forma de um homem.

— Diga o que lhe devo — redarguiu a sombra. — Não gosto de dívidas.

— De que dívidas falas tu? Acredita que me sinto feliz com a tua sorte. Senta-te, velho amigo, e conta-me tudo o que se passou. Que vias tu em casa do vizinho, no país quente?

— Contar-lho-ei, mas com uma condição: é que jamais diga a ninguém que eu fui a sua sombra. Tenciono casar-me; os meus meios permitem-me sustentar família e até mais do que isso.

— Fica tranquilo! Não direi a ninguém quem tu és. Aqui tens a minha mão: prometo-te. Um homem é um homem, e uma palavra…

— E uma palavra é uma sombra.

Dito isto, a sombra sentou-se e, ou fosse por orgulho ou fosse para aprender, colocou os pés calçados de botas de verniz sobre o braço da nova sombra, que repousava aos pés do dono como um cão de água. Esta estava muito quieta, impaciente por ouvir como se poderia libertar e tornar-se senhora de si própria.

— Veja se adivinha quem morava no quarto do vizinho! — começou a primeira sombra. — Era um ente encantador, era a Poesia. Permaneci lá três semanas, e este tempo valeu para mim mais de três mil anos. Li todos os poemas possíveis, conheço-os perfeitamente. Através deles vi tudo e tudo sei.

— A Poesia! — exclamou o sábio. — Sim, é verdade; muitas vezes ela não é mais do que um eremita no meio das grandes cidades. Vi-a por um instante… Brilhava na varanda como uma aurora boreal. Vamos! Continua. Uma vez passada a porta entreaberta…

— Encontrei-me na antecâmara; estava um pouco escuro, mas distingui na minha frente uma fila imensa de quartos, cujas portas se encontravam abertas de par em par. Fazia-se luz a pouco e pouco e, sem as precauções que tomei, teria sido fulminado pelos raios, antes de chegar junto da donzela.

— Mas, afinal, o que vias tu? — perguntou o sábio.

— Eu via tudo, como lhe disse há pouco. Mas peço-lhe, antes de continuar: não é por orgulho, mas, como homem livre e dotado de grandes conhecimentos, sem falar da minha posição e da minha fortuna, não me trate mais por tu.

— Peço-lhe perdão; é um hábito antigo. Tem toda a razão, isso não acontecerá mais. Enfim, o que via o senhor?

— Tudo! Eu vi tudo e sei tudo.

— Que aspecto ofereciam as salas interiores? Pareciam-se com uma floresta cheia de frescura, com uma igreja sagrada ou com um céu estrelado?

— Pareciam-se com tudo isso. É verdade que não as atravessei; mas da antecâmara vi tudo.

— Mas, enfim, os deuses da antiguidade passeavam-se por essas salas? Os antigos heróis nelas combatiam? Estavam povoadas pelas brincadeiras e pelos sonhos de encantadoras crianças?

— Repito-lhe mais uma vez que vi tudo. Se ali tivesse entrado, o senhor não se teria transformado num homem, mas eu transformei-me! Aprendi a conhecer a minha verdadeira natureza, os meus talentos e o meu parentesco com a poesia. Quando ainda estava consigo, nunca reflectia nisso; mas o senhor deve recordar-se como eu aumentava sempre, ao nascer e ao pôr-do-sol. Ao luar, eu parecia quase mais distinto que o senhor; mas ainda não compreendia a minha verdadeira natureza. Foi na antecâmara para onde me enviou que aprendi a conhecê-la. Estava amadurecido no momento em que me largou no mundo; mas o senhor partiu, de repente, deixando-me quase nu. Senti logo vergonha: precisava de vestuário, de botas, de todo aquele verniz que faz um homem. Escondi-me, digo-lhe sem receio – persuadido de que o senhor não o publicitará – debaixo das saias de uma confeiteira que ignorava o meu valor. Só à noite é que saía para percorrer as ruas, ao luar. Subia e descia ao longo das paredes, olhando pelas grandes janelas para dentro dos salões, e, pelas clarabóias, para as mansardas. Olhei por onde ninguém podia olhar e vi o que ninguém podia nem devia ver. Para lhe dizer a verdade, este mundo é muito vil; e, se não fosse o preconceito de que um homem significa alguma coisa, eu não me preocuparia nada em sê-lo. Vi coisas inimagináveis entre as mulheres, entre os homens, entre os pais e as crianças. Vi o que ninguém devia saber, mas o que todos ansiavam por saber – o mal do próximo. Se tivesse escrito um jornal, devorá-lo-iam; mas preferi escrever às próprias pessoas. Desencadeava-se um terror inaudito por todas as cidades por onde eu passava. Temiam-me e amavam-me. Os professores fizeram-me professor, os alfaiates deram-me fatos; tenho- os em grande quantidade; o director da Casa da Moeda cunhou-me belas moedas; as mulheres acharam-me gentil. Foi assim que me tornei no que sou. E agora, apresento-lhe os meus respeitos. Eis o meu cartão; moro do lado do sol e, em tempo de chuva, encontrar-me-á sempre em casa.

Ditas estas palavras, a sombra saiu.

— Que caso mais notável! — murmurou o sábio.

Exactamente um ano depois, a Sombra voltou.

— Como está? — perguntou.

—Ai! Escrevi acerca da verdade, da beleza e da bondade, mas ninguém prestou atenção a nada! Estou desesperado!

— Faz mal; olhe para mim; eu engordo, e é o que é preciso. O senhor não conhece o mundo. Aconselho-o a fazer uma viagem; e, melhor ainda, como tenciono fazer uma este Verão, dar-me-á muito prazer se me quiser acompanhar, na qualidade de sombra. Eu pago a viagem.

— O senhor exagera!

— Depende. Pode estar certo de que a viagem lhe fará bem. Seja a minha sombra, não tem nenhuma despesa a fazer.

— Vai longe demais! — disse o sábio.

— O mundo é assim e será sempre assim — redarguiu a Sombra, indo-se embora.

O sábio achava-se cada vez pior, cheio de aborrecimentos e de desgostos. O que ele dizia da verdade, da beleza e da bondade, produzia na maior parte dos homens o mesmo efeito que as rosas num animal.

— Parece uma sombra — disseram-lhe uma vez, e isso fê-lo estremecer.

— Precisa de ir a banhos — aconselhou-lhe a Sombra, que tinha voltado a vê-lo. — É o único remédio. Irei consigo, pois a minha barba não cresce, o que é uma doença. É preciso ter barba. Eu pago a viagem; o senhor fará a descrição do que virmos e isso entreter-me-á pelo caminho. Seja razoável; aceite a minha oferta; viajaremos como antigos camaradas.

Puseram-se a caminho. A Sombra tornara-se o amo, e o amo convertera-se na sombra. Por toda a parte se seguiam um ao outro, sempre em contacto, pela frente ou por trás, conforme a posição do sol. A Sombra sabia sempre ocupar o conveniente lugar do amo, e o sábio não se melindrava com isso. Estava sempre bem-disposto e, um dia, disse à Sombra:

— Visto que somos companheiros de viagem e que temos crescido juntos, tratemo-nos por tu: é mais íntimo.

— O senhor está a ser franco comigo — disse a Sombra, ou, antes, o verdadeiro amo — Eu também lhe vou falar com franqueza. Na qualidade de sábio, o senhor deve saber quão estranha é a Natureza. Há pessoas que não podem tocar um bocado de papel pardo sem se sentirem mal; outras tremem quando ouvem esfregar um prego numa vidraça; quanto a mim, sinto a mesma sensação quando ouço tratarem- me por tu: afigura-se-me que isso me deita por terra, como no tempo em que eu era a sua sombra. Bem vê que isto em mim não é orgulho, mas sensibilidade. Não posso deixá-lo tratar-me por tu, mas tratá-lo-ei eu a si: será metade do que deseja.

A partir desse momento, a Sombra começou a tratar por tu o seu antigo amo.

«Essa é boa!», pensou este. «Eu trato-o por senhor e ele trata- me por tu.» Não obstante, resignou-se.

Chegados aos banhos, encontraram uma grande quantidade de estrangeiros; entre outros, uma formosa princesa atingida por uma doença inquietante: via claro demais.

Logo distinguiu a Sombra entre todas as outras pessoas: «Ele veio aqui para fazer crescer a barba, segundo dizem; mas a verdadeira causa da sua viagem é que não tem sombra nenhuma.»

Cheia de curiosidade, entabulou, durante um passeio, uma conversa com aquele estrangeiro. Na sua qualidade de princesa, não necessitava de muitos rodeios. Disse-lhe logo:

— A sua doença é não ter sombra.

— Vossa Alteza Real acha-se felizmente muito melhor — respondeu a Sombra. — Sofria de ver demasiado claro, mas agora está curada, pois não vê que tenho uma sombra, e até uma sombra extraordinária. Vê a pessoa que me segue continuamente? Não é uma sombra vulgar. Do mesmo modo que, às vezes, se dá por libré aos criados um tecido mais fino do que aquele que se usa em si próprio, assim eu adornei a minha sombra como um homem. Até lhe dei uma sombra. Por muito caro que isso me custe, gosto de ter coisas que os outros não têm.

«O quê! – pensou a princesa. – Estarei realmente curada? É verdade que a água, na época em que vivemos, possui uma virtude singular, e estes banhos têm grande reputação. No entanto, não irei já embora; divirto-me aqui muito e este rapaz agrada-me. Oxalá que a barba não lhe cresça, porque, se não, vai-se embora!»

À noite, a princesa dançou com a Sombra no grande salão de baile. Ela era muito ágil, mas o seu cavalheiro ainda era mais; nunca encontrara um como ele. Disse-lhe o nome do seu país, que ele conhecia muito bem, pois tinha olhado para ele através das janelas do comboio. Ele contou mesmo à princesa certas coisas que a surpreenderam muito. Era o homem mais instruído do mundo! Ela testemunhou-lhe, pouco a pouco, toda a sua estima, e, quando uma vez mais dançaram, traiu o seu amor por olhares que pareciam atravessá-lo. Não obstante, como era rapariga sensata, disse para consigo: «Ele é instruído, dança perfeitamente, mas será um homem verdadeiramente culto? Isto é o mais importante; vou observá-lo melhor».

E começou a interrogá-lo sobre coisas difíceis, a que ela própria não seria capaz de responder. A Sombra fez uma careta.

— Então, não sabe responder? — interrogou a princesa.

— Eu sabia tudo isso na minha infância — respondeu a Sombra — e estou certo de que a minha sombra, que vedes ali, em frente à porta, lhe responde muito facilmente.

— A sua sombra! É de admirar!

— Não estou bem certo disso, mas julgo que sim, visto que ela me seguiu e escutou durante tantos anos. Somente, Vossa Alteza Real permitir-me-á que chame a sua atenção para um ponto muito particular: esta sombra sente-se de tal forma orgulhosa por pertencer a um homem que, para a encontrar de bom humor, condição necessária para que responda bem, é preciso tratá-la como se fosse um homem.

— De acordo — disse a princesa.

E aproximou-se do sábio para lhe falar do Sol, da Lua, do homem sob todos os aspectos; e ele respondia convenientemente e com muito espírito.

«Que homem tão distinto», pensou, «para ter uma sombra tão sábia! Seria uma bênção para o meu povo, se eu o escolhesse para esposo.»

E a princesa e a Sombra depressa ajustaram o casamento. Mas ninguém devia sabê-lo antes da princesa ter regressado ao seu reino.

— Ninguém! Nem mesmo a minha sombra — disse a Sombra, que tinha razões para isso.

Logo que eles chegaram ao país da princesa, a Sombra disse ao sábio:

— Escuta, meu amigo: sou feliz e poderoso, e vou dar-te uma prova particular da minha benevolência. Habitarás o meu palácio, tomarás lugar a meu lado na carruagem real e receberás cem mil escudos por ano. No entanto, ponho uma condição: é que te deixes qualificar de sombra por toda a gente. Nunca dirás que foste um homem, e, uma vez por ano, quando eu me mostrar ao povo na varanda iluminada pelo sol, deitar-te-ás a meus pés como uma sombra. É ponto assente que vou desposar a princesa. A boda tem lugar esta noite.

— Mas é demais! — exclamou o sábio. — Nunca consentirei nisso; vou esclarecer a princesa e todo o país. Quero dizer a verdade: sou um homem, e tu, tu não passas de uma sombra vestida!

— Ninguém acreditará em ti: sê razoável, ou chamo a guarda.

— Vou já ter com a princesa!

— Mas eu chegarei primeiro e mandar-te-ei prender.

E a sombra chamou a guarda, que já obedecia ao noivo da princesa, e o sábio foi levado.

— Estás a tremer! — disse a princesa, quando voltou a ver a Sombra. — O que há? Tem cuidado! Não adoeças no dia da tua boda.

— Acabo de assistir a uma cena cruel: a minha sombra enlouqueceu. Imagina que se lhe meteu na cabeça que é um homem, e que eu sou a sua sombra.

— É horrível! Espero que a tenham encarcerado.

— Sem dúvida; mas receio que nunca mais se restabeleça.

— Pobre sombra — disse a princesa. — É bem desgraçada. Talvez fosse um benefício tirar-lhe o pouco de vida que lhe resta. Sim, pensando bem, julgo necessário acabar com ela em segredo.

— É uma resolução medonha — respondeu a Sombra, fingindo que suspirava. — Perco um servidor fiel.

«Que nobre carácter» — pensou a princesa.

À noite, toda a cidade estava iluminada. Dispararam-se salvas de artilharia; por toda a parte se ouvia músicas e cantares. A princesa e a Sombra mostraram-se à varanda, e o povo, ébrio de alegria, aclamou- os três vezes.

O sábio não viu nada, não ouviu nada, porque o tinham matado.

Hans-Christian Andersen
Contos de Andersen
Barcelos, Companhia Editora do Minho, 1959

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Coerência

Aqueles que prometem e não cumprem, que são uma coisa nas palavras e outra nos actos, aqueles que mudam de acordo com as conveniências do momento, acabam por transformar a sua vida numa farsa, da qual não sairão incólumes.

 

A fita vermelha

Eu tinha começado a ensinar. Era muito nova então. Quase tão nova como as meninas que eu ensinava. E tive um grande desgosto. Se recordar tudo quanto tenho vivido (já há mais de vinte anos que ensino), sei que foi o maior desgosto da minha vida de professora. Vida que muitas alegrias me tem dado. Mais alegrias do que tristezas.

Se vos conto este desgosto tão grande, não é para vos entristecer. Mas para vos ajudar a compreender, como só então eu pude compreender, o valor da vida. O amor da vida. O valor de um gesto de amor. O seu «preço», que dinheiro algum consegue comprar.

Eu ensinava numa escola velha, escura. Cheia do barulho da rua, dos «eléctricos» que passavam pelas calhas metálicas. Dos carros que continuamente subiam e desciam a calçada. Até das carroças com os seus pacientes cavalos.

A escola era muito triste. Feia. Mas eu entrava nela, ou digo antes, em cada aula, e todo o sol estava lá dentro. Porque via aqueles rostos, trinta meninas, olhando para mim, esperando que as ensinasse.

O quê? Português, francês. Hoje sei, acima de tudo, o amor da vida.

Com toda a minha inexperiência. Com todos os meus erros. Porque um professor tem de aprender todos os dias. Tanto, quase tanto ou até muito mais que os alunos.

Mas, desde o primeiro dia, compreendi que teria nas alunas a maior ajuda. O sol, a claridade que faltava àquela escola de paredes tristes. A música estranha e bela que ia contrastar com os ruídos dos «eléctricos», dos automóveis da calçada onde ficava a escola. Até com o bater das patas dos cavalos que passavam de vez em quando.

Porque, mais do que português e francês, havia uma bela matéria a ensinar e a aprender. Foi nessa altura que comecei mesmo a aprender essa tal matéria ou disciplina – ou antes, a ter a consciência de que a aprendia.

Eu convivia com jovens (seis turmas de trinta alunas são perto de duzentas) que no princípio de Outubro me eram desconhecidas. Cada uma delas representava a folha de um longo livro que no princípio de Outubro me era desconhecido. Todas eram folhas de um longo livro por mim começado a conhecer. Não há ser humano que seja desconhecido de outro ser humano. Só é precisa a leitura.

Eu tinha agora ali perto de duzentas amigas. Todas aquelas meninas confiando em mim, esperando que as ensinasse; sorrindo, quando eu entrava, assim me ensinavam quanto lhes devia.

Mas um dia. Eu conto como aconteceu o pior. E conto-o hoje, a vós, jovens, que me podem julgar. Julgar-me sabendo este meu erro. E evitarem, assim, um erro semelhante para vós mesmos.

Já era quase Primavera. Na rua não havia árvores nem flores. Só os mesmos carros com o seu peso e a violência da sua velocidade. Gritos de vez em quando. Uma Primavera só no ar adivinhada.

Numa turma uma aluna faltava há dias. Era a Aurora. Morena, de grandes olhos cheios de doçura. Talvez triste. A Aurora estava doente. Num hospital da cidade, numa enfermaria. Num imenso hospital. Olhei o retratinho dela na caderneta.

Retratinho de «passe», num sorriso de nevoeiro de uma modesta fotografia. Tão cheia de doçura a Aurora! Doente, do hospital tinha-me mandado saudades.

— Vou vê-la no próximo domingo — anunciei às companheiras. E tencionava ir vê-la mesmo no próximo domingo.

Mas o próximo domingo foi cheio de Sol. Sol do próprio astro, quente, luminoso. Igual e diferente, ao mesmo tempo, do sol-sorriso das meninas.

E eu, a professora, ainda jovem, que gostava do Sol, fui passear. Ver mar? Campos verdes? Flores?

Já nem me lembro. E da Aurora me lembraria se a tivesse ido visitar.

Começava a Primavera.

Adiei a visita naquele próximo domingo, para outro dia, para outro próximo domingo.

Hoje sei que o amor dos outros se não adia.

Aurora esperou-me toda a tarde de domingo, na sua cama branca, de ferro.

Tinha posto uma fita vermelha a segurar os cabelos escuros. Esperava-me, esperava a minha visita, cuja promessa as companheiras lhe haviam transmitido.

Veio a família: mãe, pai, irmãos, amigos, as colegas.

— Estou à espera da professora…

No dia seguinte a doença foi mais poderosa que a sua juventude, a sua doçura, a sua esperança.

A cabeça escura, sem a fita vermelha, adormeceu-lhe profundamente na almofada, talvez incómoda, do hospital. Sabemos todos já, amigos, que há vida e morte. Também isso temos de aprender.

Não fiquem tristes por isso. Vejam como as flores nascem quase transparentes da terra, como as podemos olhar à luz do Sol, e morrem, para de novo nascerem.

Lembrem-se como de um ovo de pássaro podem sair asas que voem tão alto em dias de Primavera. E morrem, também, e todas as primaveras nascem de novo. E, sobretudo, lembrem-se do coração de cada um de nós, desta força imensa.

E não adiem os vossos gestos. Procurar alguém que sofra, que precise de nós, nem sequer é um gesto generoso, deve ser um gesto natural que se não adia.

Às vezes até precisamos uns dos outros para dizermos que estamos felizes, contentes. Só para isso. Mesmo felizes precisamos dos outros.

*

Aurora ensinou-me para sempre esta verdade.

As lágrimas que por ela chorei já não lhe deram aquela visita do próximo domingo.

Nem a mim a alegria de a encontrar sorrindo, cheia de doçura, com uma fita vermelha a prender os cabelos escuros. Vermelha de sangue, como a vida. O Sol. Flores vermelhas.

Aurora era o seu nome. E a sua vida uma manhã apenas que, na minha distracção ou egoísmo, não tive tempo de olhar. Uma manhã com uma fita vermelha. Que lágrima nenhuma pode reflectir.

Matilde Rosa Araújo
O Sol e o Menino dos Pés Frios
Lisboa, Livros Horizonte Lda, 2001

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Rectidão

Adoptar o princípio de mentir sempre que convém atrai a desconfiança dos demais e leva à solidão. Quem engana acabará por ser enganado, porque quem semeia joio não pode colher trigo. Nada é mais importante do que uma consciência tranquila, embora o caminho da verdade nem sempre seja fácil.

 

 

O caminho para a verdade

A chuva que caía há dias parara finalmente nessa tarde. Um suspiro de alívio percorreu a turma toda. Os rapazes sabiam agora que o jogo de futebol, há tanto tempo ansiosamente esperado, poderia ter lugar e já não seria cancelado por causa do mau tempo.

— Bom, às três horas no campo de jogos, mas em ponto! — diz Matias para Ricardo, ao irem juntos para casa no fim das aulas.

Ricardo abana a cabeça e murmura algo de incompreensível sempre que Matias dá pontapés nas pedras do caminho para ensaiar golos. Tenta acertar num tronco, numa pedra, ou até na folha de um ramo. Ricardo já não suporta este hábito. É que Matias tem tudo menos boa pontaria.

As suas brincadeiras com as pedras já haviam causado aborrecimentos que chegassem. Matias achava que era precisamente por isso que devia treinar mais. Como se dar pontapés a pedras fosse de uma importância vital!

Ainda Ricardo não tinha acabado de pensar e já se ouvia o barulho de vidros partidos: a última pedra de Matias tinha voado direitinha à janela da entrada do Sr. Gilberto. Ricardo ficou petrificado a olhar.

— O melhor agora é fugir! — ouviu Matias sibilar. E, com um salto, o autor da asneira desapareceu, a correr rua abaixo.

Ricardo ainda estava a olhá-lo, confuso, quando sentiu que alguém o agarrava pela gola e o puxava com força. À sua frente, furioso e ofegante, estava o senhor Gilberto.

— Até que enfim que te apanhei, rapazinho! Espera lá, que vou entregar-te ao teu pai, e vais ver o que te acontece!

Às três horas em ponto, Matias apareceu no campo de jogos mas, por mais que procurasse Ricardo, não o encontrou.

“Afinal sempre o apanharam”, pensou Matias “e, ou assumiu ele a culpa, ou não o deixaram falar. Já é costume. O pai dele, às vezes, é muito severo.”

Matias ficou de pé, na tribuna, a olhar para o campo vazio, em baixo. Combinavam quase sempre encontrar-se uma hora antes, para arranjarem um bom lugar. Mas, de um momento para o outro, Matias perdeu o entusiasmo pelo jogo. Pensava no vidro da janela, em Ricardo, e a má consciência atormentava-o. Devagar e de cabeça baixa, abandonou o campo e encaminhou-se, hesitante, para a casa dos pais de Ricardo.

Foi o pai em pessoa que lhe abriu a porta. Furioso como estava, nem sequer deixou Matias falar, dizendo-lhe asperamente:

— É inútil, rapaz! O Ricardo está fechado no quarto, de castigo, a fazer os trabalhos de casa… Ele que te conte tudo na segunda-feira, na escola. Até lá, já só faltam dois dias e meio — e voltou para dentro, fechando a porta com força.

Matias voltou a tocar à campainha insistentemente e, desesperado, acabou por bater à porta com os punhos. Não podia aceitar uma injustiça daquelas. Mas nada se ouvia dentro de casa.

Os pensamentos atropelavam-se-lhe na cabeça.

“Muito bem”, pensava ele, “então vou contar-lhe a verdade pelo telefone. E se ele também não me deixa falar pelo telefone?”

De repente, Matias tem uma ideia e volta a correr para casa. A mãe ainda não tinha regressado do trabalho. Procurou papel de carta e um envelope, escreveu a toda a pressa umas linhas no papel e levou a carta à estação dos correios mais próxima. Mostrou ao empregado o dinheiro que lhe sobrava da semanada e perguntou:

— Chega para mandar uma carta por correio-expresso para a cidade?

— Chega e sobra, rapaz.

— E a carta é entregue agora mesmo?

O empregado olhou-o sorrindo e respondeu:

— Há fogo? Não tenhas medo, que estás com sorte. A carta pode chegar ao destino em meia hora. Ex-cepcio-nal-mente!

Matias entregou a carta, feliz.

Uma meia hora mais tarde, o pai de Ricardo abria uma carta, entregue por um estafeta motorizado. E, admirado, leu:

Caro Sr. Pinto,

Venho, por este meio, provar-lhe que a verdade, afinal, consegue entrar em sua casa. Fui eu que parti o vidro da janela e vou pagá-lo com a minha próxima semanada.
Espero pela resposta em frente da sua casa.

Com os meus cumprimentos
Matias

A resposta que o pai de Ricardo deu a Matias pesava quase quarenta quilos e vinha a rir-se. O pai tinha mandado Ricardo. Assim que viu o amigo sentado à espera na soleira da porta, disse-lhe:

— Matias, tu és o maior maluco do mundo! O que tu fizeste… bem, nunca hei-de esquecer.

— Ora — resmungou Matias — não fales tanto, se não, ainda vamos perder a segunda parte do jogo.

Eva Rechlin

Jutta Modler (org.)
Brücken Bauen
Wien, Herder, 1987
tradução e adaptação

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Responsabilidade


É de lamentar a falta de sentido de responsabilidade de muitos jovens, que alegam o direito à liberdade, sem perceberem que esta se torna um conceito vazio quando não é acompanhada por uma atitude atenta e responsável. Aqueles que, no exercício da sua liberdade, não respeitam os direitos dos outros dificilmente poderão viver em sociedade, sem atrair para as suas vidas problemas de toda a índole.

 

 

Apenas um rapaz

Era uma vez um rapaz bravio que gostava de pregar partidas e fazer matulices, só por embirração. Era muito antipático este rapaz.

Mas emendou-se. Eu conto como foi.

Um dia, por maldade, deu-lhe na veneta atormentar uma pobre velhota, que vivia numa casinha pobre, à beira do povoado. Foi para uma pedreira que havia perto e pôs-se a atirar pedras e a rebolar pedregulhos, que iam cair no quintal da velhota. Para o que lhe havia de dar!?

No fim do seu feito, já cansado, aproximou-se da casa da velhinha, para ver de perto os resultados da sua proeza. Andava a velhinha a recolher as pedras, espalhadas pelo quintal.

— Foi uma bênção que me caiu do céu — dizia a velhinha. — Precisava, há que tempos, de consertar o muro do quintal, mas não tinha forças para trazer tantas pedras. Se não fosse esta avalanche…

O rapaz ficou de boca aberta. E mais sem fala ficou quando a velhinha lhe propôs:

— Bom rapazinho, importas-te de me ajudar a consertar o muro?

Ele, que tinha de fazer de conta que era um bom rapazinho, não teve outro remédio. Passou o resto do dia a acartar pedras, as pedras que ele lançara do alto do monte.

No fim da tarefa, a velhota agradeceu-lhe o trabalho e deu-lhe um grande boião de mel. O rapaz lá se foi, cansado e a lamber os beiços, um tanto confundido. À noite, quando se deitou, estava cá com uma dor nas costas, que não lhes digo nada! Mas regalado com o mel que a velhinha lhe dera.

Ora pois! Serviu-lhe de emenda. Mudou de intenções. Não posso garantir se, dessa vez em diante, nunca mais pregou partidas. Um diabinho não se transforma de repente num santinho. É exigir demais. Mas, na verdade, deixou-se de brincadeiras tolas.

Sem que possa ser considerado um virtuoso rapazinho, também já não é um venenoso rapazote. Nem rapazinho, nem rapazote. Apenas um rapaz. Nem muito mau, nem muito bom. Como quase toda a gente, aliás.

António Torrado
http://www.historiadodia.pt

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Paciência

A cólera obscurece a mente e impede o raciocínio. Cria situações insustentáveis, das quais todos saem prejudicados. A paciência é uma virtude fundamental, que se deve pôr em prática diariamente, porque as contrariedades são inevitáveis e é um erro perder-se a compostura por causa delas.

 

 

Quase me bateu

Esta história começa em 1947. Era um belo dia de Primavera e encontrava-me na Florida a lavrar um campo para um amigo. Fora objector de consciência durante a Segunda Guerra Mundial e estava muito feliz por voltar a casa e ao trabalho do campo, a que já me dedicava antes da guerra.

Um grupo de condenados trabalhava numa conduta de esgotos numa das extremidades do campo. Parei perto do matagal que rodeava aquele lado do campo e ajoelhei-me para arranjar e olear o arado. Enquanto deitava óleo, ouvi um ruído que me fez olhar para cima. Dos arbustos surgiu um homem. Vestia a farda às riscas pretas e brancas dos condenados. Carregava aos ombros uma moca pesada que parecia o cabo de uma ferramenta.

Parou a poucos metros de mim e as primeiras palavras que disse foram:

― Preciso muito de dinheiro e vou levar tudo o que você tiver.

Compreendi imediatamente que não podia fugir nem lutar com ele. Com a moca quase em cima da minha cabeça, não teria qualquer hipótese. Por isso, fiz o que ele menos esperava. Olhei-o nos olhos.

― Se precisa assim tanto de ajuda, porque não o diz? Ninguém precisa de se magoar.

Continuei a olear o arado. Ele ficou especado e, em seguida, baixou a moca. Quando o fez, disse-lhe:

― Com que então vai fugir? Tem consciência de que vai ser um homem procurado?

Respondeu que sim, mas que os capatazes eram maus. Falámos mais alguns minutos enquanto eu oleava e arranjava o arado. De repente, deixou cair a moca.

― Ganhou ― concedeu. ― Vou voltar.

Deu meia volta e, sem dizer palavra, desapareceu no meio dos arbustos.

Depois de dar graças pela força e pela orientação que recebera, liguei o tractor e continuei o trabalho. Sempre que me dirigia para aquele lado do campo onde se encontravam os condenados, tentava ver se o homem estava com eles, mas era demasiado longe para ter a certeza. Supus que tinha sido a última vez que o vira, mas enganava- me.

A segunda parte desta história tem lugar muitos anos mais tarde. Pusera de parte a agricultura e tornara-me Director do Clube de Rapazes da minha terra: Jacksonville, na Florida. Uma noite, vinha de uma reunião, ansioso por chegar a casa. Mesmo antes de um cruzamento, dois carros chocaram de frente. À medida que me aproximava, vi os dois condutores, aparentemente sem ferimentos, saírem dos carros e correrem um para o outro, de punhos em riste. Um deles caiu por terra e o outro, furioso, começou a pontapeá-lo e a bater- lhe com uma chave-inglesa.

Tive a forte tentação de dar meia volta em direcção a casa, mas as palavras surgiram-me muito claras: “Não, Calhoun! Tens de parar e ajudar!” Por isso, um pouco contra a vontade, pensei no que poderia fazer: não havia tempo para ir à procura de um telefone e chamar a polícia. O homem morreria rapidamente se os pontapés e os murros não parassem.

De novo, a pequena voz interior falou: “És forte e os teus músculos não te foram dados só para o desporto. Age depressa!”

Saltei para fora do carro e atravessei o curto espaço entre mim e os dois homens: um inconsciente no passeio, o outro persistindo no seu ataque enraivecido. Pus-me atrás deste, iluminado apenas pela ténue luz de uma estação de serviço próxima. Antes que ele se apercebesse, agarrei-o pelos braços, puxando-os para os lados. Ofereceu resistência mas eu mantive-me firme. Tropeçámos no passeio e caímos perto do outro homem inconsciente. Continuei a fazer força. Não lhe bati nem lhe provoquei qualquer ferimento. Em breve, apareceu um homem da estação de serviço e ofereceu ajuda. Pedi-lhe que chamasse a polícia.

A polícia chegou rapidamente. Eu continuava a agarrar o homem que se debatia e me chamava nomes nada elogiosos. O outro continuava inconsciente. A polícia trouxe algemas e estavam quase a algemar-me quando expliquei o que se passara. Agradeceram o meu gesto e deixaram-me ir para casa, para junto da minha mulher, que entretanto se perguntava por que razão demorava eu tanto. Depois de me ter vindo embora, dei-me conta de que, naquela noite escura, não tinha olhado para a cara de nenhum dos homens, o que lamentei.

A história também não termina aqui. Muitos anos mais tarde, estava a fazer voluntariado no hospital psiquiátrico da região, ajudando nas actividades lúdicas, quando, um dia, uma funcionária telefonou para me dizer que um antigo doente a tinha contactado. Chamava-se George Harris e tinha-me reconhecido no hospital. Assegurei-lhe que não conhecia nenhum George Harris, mas ele tinha-lhe dito que era o condenado fugitivo que me ameaçara outrora. E que era também o condutor que batera no outro homem e que o teria morto se eu não o tivesse feito parar. Se não tivesse sido eu, ele ter-se-ia tornado um assassino.

Depois disso, sofrera um esgotamento cerebral e ficara no hospital psiquiátrico durante algum tempo. Quando saiu, foi trabalhar e começou a poupar dinheiro. Agora, queria enviar-me um presente pelo correio. A funcionária tentou convencê-lo a vir trazê-lo pessoalmente, mas ele não quis. Por isso, uns dias mais tarde, passei pelo escritório dela. Quando abrimos a encomenda, vimos um relógio Bulova que, ainda hoje, vinte anos depois, funciona perfeitamente.

Pensei que seria este o final da história, mas não. Embora tenha mudado muitas vezes de casa, George Harris não perdeu as minhas coordenadas. Escrevia a dizer-me que estava bem e mandou-me vários presentes – um belo banco de carpinteiro, um par de botas em couro e um relógio Hamilton, da colecção “Railway Special”. Respondi-lhe sempre, a agradecer-lhe, para o apartado que vinha nas encomendas.

Nunca respondeu às minhas cartas, mas, um dia, quando estava a construir uma chaminé na Carolina do Norte, apareceu um carro com matrícula da Virgínia. O condutor dirigiu-se a mim e perguntou:

― É Cal Geiger, não é?

― Sim ― disse. ― Quem é o senhor?

― O meu nome é George Harris.

Contou-me que estudara e se tornara professor. Tinha mulher e dois filhos. Agora estava bastante doente e queria ver-me e agradecer- me pessoalmente, antes de morrer. Voltou para o carro e partiu.

Sei que o que se diz e o que se faz podem fazer a diferença. Fiz a diferença para George Harris, mas também fiz a diferença para mim próprio. Quando penso em toda esta história e no que significou para mim, sinto uma enorme gratidão por ter conhecido George Harris.

Calhoun Geiger

M. Clark; E. Briggs; C. Passmore
Lighting candles in the dark
Philadelphia, FGC, 2001
tradução e adaptação

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Diligência

É bom pensar-se de vez em quando nas muitas crianças e adolescentes de todo o mundo que não podem ir à escola. Talvez assim se venha a dar mais valor ao privilégio que é poder-se estudar, descobrir coisas novas sobre a realidade e crescer intelectual e emocionalmente. A ignorância é caminho para a miséria. Aqueles que nada querem aprender tornam-se presas fáceis de uma sociedade materialista, que ilude e explora, em vez de ajudar a crescer.

 

Chico

Chico vive numa aldeia perdida num dos muitos países de África. Podia ser em Angola, no Senegal ou no Ruanda. Podia chamar- se Chico, Abuabar ou N’gouda. Há muitos Chicos em África. Chicos de olhos brilhantes e pés descalços, com a cabeça povoada de sonhos, com vontade de ter um futuro para viver.

Como quase todos os seus companheiros, Chico levanta-se bem cedinho pela manhã. Ajuda a mãe a tratar das duas cabrinhas, Flor e Kenchú, e só depois parte para a escola.

Chico gosta particularmente de Flor. Foi ele quem lhe pôs o nome, no mesmo dia em que ela chegou à palhota, apertada nos braços fortes do pai, ainda mal se segurando nas patinhas frágeis, e a berrar pela mãe. Fora um vizinho que lha dera, como forma de pagar a ajuda no arranjo da cabana.

Na primeira noite, Flor berrou sempre a chamar pela mãe e nem deixava que Kenchú tentasse acalmá-la com lambedelas carinhosas.

Deitado na sua esteira, Chico não conseguia adormecer. Entendia tão bem a cabrinha! O pai dele arranjara trabalho longe, lá na cidade, e só podia vir a casa de quinze em quinze dias. Às vezes, para fazer mais algum dinheiro, ficava fora mais tempo. Quando chegava a hora de regressar à cidade, o pai dizia-lhe que se portasse como o chefe da casa e que devia obedecer à mãe. Como se fosse preciso dizer-lho! Ele bem sabia que a mãe, com o trabalho na fazenda do Sr. Macedo, com os gémeos de três anos e Linita, de oito, não podia fazer tudo e precisava da ajuda dele.

Sempre que o pai partia, Chico ficava triste o resto do dia, mas depois isso passava. Quando a saudade lhe enchia o peito até cima e parecia querer saltar-lhe pelos olhos, apertava com muita força na mão o seixo que o pai lhe dera naquela tarde em que pescara o maior peixe da sua vida. O pai explicara-lhe que tinha arranjado na cidade um bom trabalho, mas que ia deixar de poder vê-los todos os dias. Depois, metera a mão na água e tirara dois seixos, os mais bonitos que o filho alguma vez vira, e colocou-lhe um na palma da mão.

— Quando tiveres muitas saudades minhas, apertas com força esta pedrinha. A tua saudade vai passar para a minha pedra e eu vou recebê-la e tu vais sentir-te acompanhado.

Em certas ocasiões, as saudades eram tantas que acabavam por conseguir irromper para fora e duas lágrimas teimosas, quentes e grossas, deslizavam suavemente pela face castanha-escura de Chico.

Ah, como ele compreendia a cabrinha malhada com a manchinha branca na testa! Esgueirou-se para fora da palhota sem acordar os pais e os irmãos que dormiam, saiu para a noite quente e húmida e entrou na cabana dos animais. Passou a noite inteira deitado ao lado de Flor, que se acalmou e acabou por adormecer com a cabeça poisada no peito de Chico. No dia seguinte, já aceitou de bom grado o leite que Kenchú lhe oferecia.

Os pais estranharam a mudança mas, naõ sabiam a que atribuí- la. Era um segredo partilhado por Chico, Flor e Kenchú.

Só depois de ordenhadas as cabras e de lhes ter deitado de comer, é que Chico saía para a escola.
À saída da aldeia encontrava-se com Djimbu e Mkembé, os seus dois melhores amigos, e juntos faziam o caminho até à escola da Missão.

Ir à escola era do que Chico mais gostava. O seu maior sonho, já segredado para dentro das orelhas de Flor e contado ao pai, durante uma tarde de pesca, era, um dia, poder ensinar outros meninos como ele a ler e a escrever. E haveria de trabalhar tanto, que iria até conseguir dinheiro para comprar uma bicicleta novinha para os irmãos, igual a uma que vira um dia. Bem, do que ele gostava mesmo, mesmo, era de um dia poder ter um carro como o do Sr. Macedo, o dono da fazenda onde a mãe às vezes ia trabalhar. Mas esse era o seu maior segredo e ainda não se atrevera a contar a ninguém, nem mesmo a Flor. Claro que, se o contasse a Djimbu ou a Mkembé, eles também iam querer, e deixava de ser um sonho só dele…

De tempos a tempos, sempre que o Sr. Macedo vinha à casa grande, Chico ficava parado no caminho a observar o grande carro branco e brilhante, tão brilhante que, quando o sol cintilava nos vidros, até fazia doer os olhos. E assim ficava perdido no seu segredo.

Ao chegar à escola, Chico notou um alvoroço desacostumado. Alguns homens em manga de camisa transportavam caixas para dentro do edifício da escola. Pareciam todos muito bem dispostos, e até o Palhinhas, o cão acastanhado do professor, soltava latidos alegres e abanava a cauda, bem disposto.
Chico, Djimbu e Mkembé estugaram o passo. Que confusão!

Quando a velha furgoneta partiu, deixando a velha escola atafulhada de caixas, sentaram-se, de pernas cruzadas no chão, e o professor começou a abrir as caixas.

Era uma encomenda vinda da Europa com uma oferta de material para a escola. Perante o olhar fascinado das crianças, o professor foi retirando, com largos gestos teatrais mas sinceros, folhas soltas, restos de cadernos, cadernos e blocos novos e usados. Chico nem queria acreditar! Aquele material podia não ser novo, mas para eles isso não tinha a menor importância e era-lhes muitíssimo útil. Quem o enviara parecia adivinhar exactamente aquilo de que estavam a precisar!

O professor continuou a retirar lápis, lápis novos e usados, restos de lápis, lápis de cor – que bonitas as cores! – canetas – eram tão poucas as que lhes chegavam à escola! – borrachas que apagavam o que o lápis escrevia. Mas o melhor de tudo vinha no último caixote…

Quando o professor o abriu, o rosto iluminou-se num sorriso. Muito lentamente, como um mágico que tira um coelho da cartola, o professor foi erguendo o braço. As crianças, mortas de curiosidade e com os olhos a brilhar, sustinham a respiração. O professor mostrou… livros!! Livros com imagens cheias de cor! Chico sentiu o coração a bater mais rápido. Parecia-lhe que estava a viver um sonho e só tinha medo de que a mãe o acordasse naquele momento.

Livros! Chico era capaz de ficar horas a fio mergulhado e perdido nas páginas de um livro. Ainda não tinha lido muitos. Só três dos meros vinte que constituíam a magra biblioteca da escola. Podia ser muito reduzida, mas os meninos achavam-se importantes por os terem e manuseavam-nos carinhosamente e com muito cuidado. Chico tinha lido os três mesmo até ao fim, e tantas, tantas vezes, até saber as histórias de cor e poder contá-las à noite, em volta do lume, à mãe, ao pai e aos irmãozinhos, que o escutavam com os grandes olhos castanhos muito abertos de espanto e com a respiração suspensa. Se Chico pudesse, levaria um daqueles para casa para lhos ler. Ficariam certamente ainda mais orgulhosos dele. Se algum dia conseguisse ganhar dinheiro, haveria de poupar até conseguir juntar o suficiente para comprar um grande livro de histórias ou de aventuras para ler aos irmãos. O maior e o mais grosso que houvesse à venda.

Os pensamentos de Chico foram interrompidos pela passagem do professor. Já tinha partido os lápis em pedaços mais pequeninos, que distribuía naquele momento pelos alunos. Cada um ia encaixar o seu pedacinho de lápis numa caninha ou num pau para conseguir aproveitá-lo até ao fim. Tinham autorização para levar o material para casa, mas ninguém o levava com medo de perder as preciosas folhas de papel ou os lápis.

Chico pegou no seu, como quem recebe em mãos uma relíquia ou um tesouro. Não, hoje ia ter muito cuidado. Da última vez que preparara o lápis, no preciso momento em que estava a cortar a cana, o Sr. Macedo apareceu no seu carro brilhante, a apitar a uma gazela que se atravessara no caminho. Por momentos, Chico esqueceu tudo o que estava a fazer, imaginando-se sentado nos bancos macios, por trás do volante, com o vento a acariciar-lhe a face, e a apitar a impalas, zebras e macacos. Zás! Deixou cair o braço e cortou o bico do lápis, que, se já era pequeno, ainda mais reduzido ficou.

Que tristeza! Ficou tão furioso que até deu pontapés no velho embondeiro que se erguia à saída da cabana. Porque é que o Sr. Macedo tinha de aparecer precisamente naquele momento? Por causa daquele carro enfeitiçado, já não teve lápis para escrever ao pai – o encarregado da fábrica lia as cartas aos empregados – numa altura em que ele esteve muito tempo sem vir a casa. Não, desta vez ia estar com mil olhos. Não ia ceder à tentação de olhar, nem que passassem mesmo ao lado dele dois carros a apitar!

Ao regressar a casa, Chico apertava com força o seixinho do rio. Tinha tantas novidades para contar em casa! E tanta coisa para escrever ao pai! Queria dizer-lhe que, da próxima vez que viesse a casa, ele, Chico, iria ter novas histórias para contar à noite, junto ao fogo.

I. Birnbaum

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 Honestidade

A honestidade é encarada como um obstáculo por aqueles que querem subir na vida e não olham a meios para atingir os seus fins. Surdos à voz da consciência, caminham deixando atrás de si um rasto de sofrimento e de revolta, até se verem, por fim, num beco sem saída.

 

 

Ana e a galinha pedrês

Esta história passou-se na Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. A comida era escassa. As pessoas, sobretudo as crianças, alimentavam-se mal e andavam sempre esfomeadas.

Todas as semanas, Ana ia ao campo à procura de alimentos. Levava a bicicleta, mas estava demasiado cansada para pedalar. Caminhava devagar, empurrando-a. Mas até isso fazia com que o seu coração batesse depressa. Ultimamente, sentia-se sempre cansada.

E também desanimada. Nem aos agricultores restava qualquer legume. À excepção de algumas beterrabas que um homem lhe tinha dado, mais ninguém lhe dera ou vendera o que quer que fosse.

Naquele instante, Ana apercebeu-se de que não podia continuar. Tinha de parar e de descansar. Tombou a bicicleta, assegurando-se primeiro de que as beterrabas não caíam do cesto. Depois estendeu-se na relva fresca.

Sonhou com comida. Parecia que, nos últimos tempos, todos os seus sonhos tinham a ver com comida. Desta vez, sonhou com cenouras douradas, cozidas a vapor, com natas e manteiga. Mesmo no sonho, Ana sabia que isso era uma loucura, porque não conseguia recordar-se de alguma vez ter comido manteiga ou natas. Mas a mãe tinha-lhe falado sobre isso e, no seu sonho, quase podia provar aquela delícia.

Sonhou, em seguida, com tomates, vermelhos e sumarentos. Havia um monte deles e Ana preparava-se para comer um quando tudo desapareceu. Acordou de repente e sentou-se. Na sua frente estava uma galinha pedrês. Olharam uma para a outra.

De repente, Ana apercebeu-se de que a galinha estava a falar. Pelo menos, estava a cacarejar e a falar da maneira que as galinhas falam.

- Porque é que estás a olhar para mim, sua tonta? – perguntou Ana. – Fazes tanto barulho que me acordaste.

- Cu-u-u-t… cu-u-u-t… – disse a galinha, e recuou, assustada com a voz zangada de Ana.

Foi então que esta viu o ovo! Pegou nele cuidadosamente. Ainda estava quente.

- Oh, minha linda, linda galinha! – exclamou. – Desculpa ter sido dura contigo. Obrigada por este ovo maravilhoso!

A galinha pedrês afastou-se e Ana ficou sozinha com o ovo. Agora que descansara, sentia-se melhor.

Tinha de ir depressa para casa, dar o ovo à mãe. Talvez pudessem comer uma omeleta pequenina!

Tirou o lenço que usava na cabeça. Com cuidado, embrulhou o ovo e pô-lo delicadamente no cesto, juntamente com as beterrabas. Montou na bicicleta e começou a subir a estrada. Mas um pensamento triste tomou conta dela. Na verdade, o ovo não lhe pertencia. Pertencia ao dono da galinha pedrês. Ana começou a pedalar cada vez mais devagar.

“Não”, disse energicamente para si mesma, “o ovo é meu. A galinha pô-lo mesmo ao meu lado enquanto eu dormia.” Continuou a subir a estrada. “De qualquer forma, não sei de quem é a galinha. E mesmo que soubesse, ninguém ia adivinhar que eu tenho o ovo.”

Havia uma casinha branca perto da estrada. “Não conseguem ver nada”, disse para consigo. “Tenho o ovo todo coberto.” Começou a pedalar mais depressa.

Mas parecia que a bicicleta ia cada vez mais devagar. E, quando chegou perto da casa branca, as pernas já não conseguiam pedalar. Muito lentamente, desceu da bicicleta e dirigiu-se à casa.

- Sim? – perguntou a jovem mulher que veio à porta.

Com muita relutância e o sonho da pequena omeleta a desvanecer-se rapidamente, Ana indagou:

- Tem… tem… uma… uma galinha pedrês?

- Sim, temos – respondeu a mulher.

Lenta e cuidadosamente, a menina tirou o ovo do lenço e entregou-o à mulher.

- Então, isto também lhe pertence – disse numa voz quase inaudível.

- Oh, muito obrigada. Aquela galinha anda sempre a vaguear e a deixar os ovos nos sítios mais improváveis. É a única que nos resta, e precisamos dos ovos dela para o nosso menino. É que ele está muito doente.

Ana preparava-se para ir embora. A jovem mulher parecia perturbada.

- Foste tão amorosa – disse. – Gostaria de te dar algo para pores no cesto. Mas não temos quase nada. Eu… eu não tenho nada para te dar.

- Não faz mal – disse Ana.

E montou outra vez na bicicleta. Queria ir para longe daquela casa, da galinha pedrês e do ovo maravilhoso.

Quando chegou a casa, Ana contou à mãe o que se tinha passado. Teve medo de que a mãe lhe ralhasse por chegar tarde e por só trazer algumas beterrabas. Quem sabe se até se zangaria por não ter ficado com o ovo…

Mas a mãe apenas acariciou o cabelo de Ana e olhou-a durante muito tempo, sorrindo.

- Então não ficou zangada comigo, mãe? Não lhe parece que sou nova demais para ir ao campo tentar arranjar legumes?

- Não, Ana. – disse a mãe. – Estou aqui a pensar na filha maravilhosa que tenho. Quando se anda sempre com tanta fome, só um verdadeiro adulto poderia ter tomado uma decisão tão difícil.

Ruth Hunt Gefvert

M. Clark; E. Briggs; C. Passmore
Lighting candles in the dark
Philadelphia, FGC, 2001
tradução e adaptação

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Simplicidade

Aqueles que gostam de se enaltecer atraem a inveja dos demais e acabam sozinhos. Quem tem verdadeiro valor é discreto e simples, trata os outros com afabilidade e não procura ser o centro das atenções. É um sinal de imaturidade a atitude exibicionista de tantos jovens, que gostam de se fazer notar pelos piores motivos: a indisciplina, a ignorância e a grosseria. Muitos acabam na marginalidade.

 

Um presente de arromba

Foi cinco dias depois dos meus anos. Tinha dezassete anos e cinco dias. Era terça-feira, 25 de Novembro. Chovia. Apanhei o autocarro porque chovia muito quando saí da escola. Só havia um lugar vago. Sentei-me e tentei afastar a nuca da gola, que ficara encharcada enquanto esperava na paragem do autocarro, e parecia a mão gelada da morte. Sentei-me e senti-me culpado por ter apanhado o autocarro.

Culpado por ter apanhado o autocarro. Por apanhar o autocarro. Vejam: a coisa pior quando se é jovem é a banalidade.

A razão por que me sentia culpado por ter apanhado o autocarro é esta: tinham passado cinco dias desde os meus anos, não é verdade? Para o aniversário, o meu pai dera-me um presente. Um presente de arromba. Inacreditável. Deve tê-lo planeado e andado a poupar durante anos, literalmente, para o comprar.

O presente estava lá, à minha espera, quando cheguei das aulas. Estacionado em frente de casa, mas nem dei por isso. O meu pai passou o tempo a fazer alusões indirectas, mas não percebi. Por fim, teve de me levar até lá fora e mostrar-mo. Quando me deu as chaves, a sua cara crispou-se toda, como se lhe apetecesse chorar de orgulho e de alegria.

Era, é claro, um carro. Não vou dizer qual era a marca, porque penso que já nos rodeia demasiada publicidade. Era um carro novo. Com relógio, rádio, todo artilhado. Levou uma hora a mostrar-me todos os extras.

Eu aprendera a guiar e em Outubro tirara a carta de condução. Parecia-me útil, em caso de emergência, e podia fazer alguns recados à minha mãe e sair sozinho se quisesse. Ela tinha um carro, o meu pai tinha um carro e agora eu tinha um carro. Três pessoas, três carros. A única chatice é que eu não queria um carro.

Quanto terá custado? Não perguntei, mas deve ter sido, pelo menos, três mil dólares. O meu pai é contabilista e nós não temos quantias destas para coisas desnecessárias. Com aquele dinheiro, eu podia ter vivido um ano ou mais no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, se admitíssemos que conseguia uma bolsa de estudo. Foi o que imediatamente me passou pela cabeça, antes mesmo de ele abrir a porta reluzente. Podia ter colocado o dinheiro numa conta-poupança. É claro que eu podia vender o carro e não perderia muito dinheiro se o fizesse rapidamente. Pensava nisso enquanto ele me punha as chaves na mão e dizia: “É todo teu, filho!” E a cara dele tremia outra vez.

E eu sorri. Penso.

Fomos imediatamente dar uma volta no carro, é claro. Conduzi até ao parque, ele trouxe-o de volta, estava ansioso por pôr as mãos no volante e tudo correu bem. O problema só surgiu quando, na segunda- feira seguinte, descobriu que eu não fora de carro para o liceu. Porquê?

Não fui capaz de lhe explicar. Nem eu percebia bem. Se o tivesse levado para o liceu e o tivesse arrumado lá no parque, nunca mais me livraria dele. Era meu. Pertencia-me. Era dono de um carro novo. Todo artilhado. A malta no liceu diria: “Eh, pá! Olha para aquilo! Porreiro! Topem o Griffiths-Acelera!”. Alguns deles gozariam, mas outros admirá-lo-iam verdadeiramente, e quem sabe se também a mim, por ter a sorte de o possuir. E isso é que eu não ia aguentar. Eu não sabia quem era, mas uma coisa é certa: não queria ser um acessório de um carro.

Ursula K. Le Guin
Tão longe de sítio nenhum
Lisboa, Ed. Fragmentos, s/d

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