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Um gato debaixo do pinheiro de Natal

Compaixão

As pessoas têm tendência para se alhear dos sofrimentos dos outros ou para os minimizar. Aqueles que vivem sem dificuldades esquecem que há pessoas em situação de grande pobreza, e aqueles que têm saúde não apoiam os que estão doentes. É necessário aprender-se a sentir compaixão.

Um gato debaixo do pinheiro de Natal

Porque a vida habitava nela, a possuía, a menina reconhecia a morte inscrita no reverso de qualquer momento de felicidade, de qualquer instante feliz. Brincava no cemitério como se fosse um jardim.

— O gato cinzento está com mau aspecto — observa Laura, empoleirada no alto do pequeno muro que separa o jardim do baldio. Mas o pai está a cortar a sebe e não ouve o que ela diz.

— O gato cinzento está com mau aspecto; acho que está doente… — insiste ela.

A mãe não ouve, ocupada também a arrancar as ervas do passeio, o que Laura, aliás, também devia estar a fazer para a ajudar.

Então Laura repete para si, em voz baixa e grave:

— Parece que o gato cinzento vai morrer.

O gato sem nome nem casa tem o pelo descaído e o salto lento; não liga aos pássaros, já não tem fome, foge do sol e abriga-se entre dois pés de urtigas.

— É preciso chamar o veterinário — sugere Laura.

— Nem penses! Ele tem mais que fazer do que tratar os gatos vadios.

Desta vez, a mãe sempre resolvera responder.

— Não é vadio, porque eu acolhi-o e gosto dele — retorquiu Laura.

Laura só faz o que lhe apetece. Amanhã, a caminho da escola, vai bater à porta do veterinário, como fez da outra vez por causa de um passarinho caído do ninho e de um ouriço-cacheiro meio esmagado por uma bicicleta. É um veterinário idoso muito simpático, que não a manda dar uma volta.

“Amanhã vou esconder o gato na minha pasta, está decidido.”

No dia seguinte, não consegue encontrar o gato em lado nenhum e são já mais que horas de ir para a escola. Laura vai então sem o gato. Bate à porta do veterinário para pedir um conselho.
Mas é a mulher que vem à porta e lhe dá uma resposta seca:

— O meu marido está inundado de trabalho.

“Inundado”? O rio inunda as terras; a banheira, quando demasiado cheia, inunda o quarto de banho… mas um veterinário “inundado”? Então, quem há-de aconselhar Laura? Não quer que se riam dela, não quer ser motivo de troça.

Durante o recreio do meio-dia, Laura escapuliu-se do pátio. Se a professora soubesse! Se a mãe a visse! Ela sabe que pode ser suspensa por três dias: “Que falta de responsabilidade!”. Ela bem sabe, mas o gato cinzento está com tão mau aspecto…

Que surpresa! É um rapaz novo que vem atender.

— O meu pai vai aposentar-se e sou eu que vou substitui-lo — explica com gentileza, ao ver o espanto de Laura.

Ela gaguejou ao falar do gato e o veterinário compreendeu num ápice:

— Esta tarde, Laura, não tenho muito trabalho, e por isso vou dar uma volta para esse lado.

Depois das quatro horas, ao regressar da escola, Laura encontrou um bilhete que a mãe lhe leu:

Lamento! Tive de ajudar o teu gato a partir sem sofrer demasiado… Foi pena, mas era melhor para ele. Quando quiseres…

Até breve, Laura!

Sérgio

Laura ouviu a mãe falar a sério de eutanásia, de injecção, e concluir por fim:

— Tens um amigo novo. Sérgio é um nome estranho, que me faz pensar no tecido do casaco que eu usava quando tinha a tua idade e que…

Mas ela não tinha vontade de ouvir as recordações da mãe. Foi chorar sozinha para cima do pequeno muro. Perguntou a si mesma para onde teria Sérgio levado o gato morto. Pareceu-lhe tê-lo visto, cinzento e de pêlo brilhante, escapar-se por entre as ervas altas; bem sabe que foi uma ilusão. Depois, o pintarroxo-que-tinha-medo-do-gato voltou para o terraço e Laura riu-se das suas bicadas ávidas. Saltou rapidamente do seu posto de observação para ir buscar migalhas frescas.

Junto do pinheiro de Natal, está um presente que dá saltos. Contrariamente ao habitual, a mãe sugere que se abram as prendas de Natal antes da missa do galo. Laura nem quer acreditar. Há muitas coisas a mudar nesta casa, de há uns tempos para cá. Talvez desde que o pai “esteve às portas da morte”, como diz a avozinha. Laura ficou a saber que isso significa escapar à morte. Terá ela suspeitado da gravidade do estado de saúde do pai, encontrado desmaiado no jardim enquanto ela estava na escola?

No entanto, ele está aqui esta noite, o pai, bem vivo e a rir-se, quando a mãe mostra à Laura a prenda que mexe: um gatinho cinzento.

— Parece filho do gato cinzento. Amanhã vou logo apresentá-lo ao Sérgio.

Colette Nys-Mazure
Contes d’Espérance
Paris, Desclée de Brouwer, 1998
tradução e adaptação

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