Histórias com valores · histórias para adolescentes

Um arremesso infeliz

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A bola bateu com um silvo no taco de alumínio, num arremesso veloz e certeiro que o meu filho Chris, jogador de uma escola básica, tinha rebatido milhares de vezes. Só que, desta vez, a bola bateu num seixo e fez uma carambola esquisita em direção à cabeça dele. Com um ruído preocupante, a bola apanhou-lhe em cheio o olho esquerdo, e ele caiu desamparado. Um arremesso infeliz e uma fratura feia.

A ambulância foi chamada ao campo, e ele foi levado dali, coisa que parece não acontecer muito no mundo idílico do beisebol escolar. No hospital, diagnosticam a Chris uma fratura dos ossos da órbita do globo ocular – um ferimento desportivo clássico, facilmente resolvido através de um procedimento cirúrgico simples.

Só que as coisas correram mal e, quando o cirurgião conseguiu arranjar coragem suficiente para me dizer e à minha mulher o que tinha acontecido – um coágulo sanguíneo não detetado cortara o oxigénio ao nervo ótico – soubemos que Chris ficaria cego do olho esquerdo, provavelmente para sempre. As bolsas universitárias com que ele contava e o sonho de uma carreira profissional no beisebol desvaneceram-se num ápice.

Chris estava ainda tonto da cirurgia quando entrámos no seu quarto do hospital. Tinha o olho esquerdo tapado por ligaduras que escondiam o segredo que tínhamos que partilhar com ele. Tagarelámos acerca de pequenas coisas até que ele ficou completamente acordado para fazer a pergunta inevitável “Correu tudo bem?”
A minha mulher, Sue, apertou-me a mão quando eu disse que não, que não tinha corrido bem. Tinha havido complicações. Que os médicos tinham dado o seu melhor, que a medicina ainda era mais uma arte que uma ciência. A meio do discurso que eu levava semipreparado, Chris interrompeu-me:

“Pai, estou cego do olho esquerdo?”
“Sim, filho. Receio bem que sim.”
“Vou algum dia ser capaz de ver de novo? ”
“Não sabemos – os médicos não sabem. Talvez um pouco. Um dia. Não agora.”
Foi a coisa mais difícil que alguma vez tive que dizer!

Chris compreendeu e logo olhou através da janela. Lá fora era primavera, e ouviu-se durante algum tempo, numa árvore próxima, um tordo a entoar a sua canção territorial.
“Posso beber uma Cola?”
A enfermeira de serviço trouxe a Chris uma bebida de lata sem álcool, com um copo e algum gelo. A mãe encheu-o com a bebida e Chris sentou-se a beber por uma palhinha, e depois examinou a lata em cima da mesinha de cabeceira.
“Pai, podes ver se me arranjam um lápis e papel?”

Saí em direção ao posto das enfermeiras e pedi emprestado um bloco de notas e um lápis. E regressei ao quarto do Chris, onde a mãe estava a falar com ele num tom bastante baixo. Entreguei-lhe o bloco e o lápis e elevámos-lhe um pouco a cama. Ele levantou os joelhos e apoiou neles o bloco, olhando para a lata da bebida, e começou a desenhar. Sue e eu não dissemos nada. Passaram-se longos minutos.

Finalmente, ele destacou do bloco a folha de papel e estendeu-ma. Olhámos ambos para ela – o retrato quase perfeito de uma lata de Coca-Cola. Chris sempre tinha revelado uma fantástica capacidade para o desenho: tudo o que os seus olhos viam, a mão desenhava. Tínhamos sempre pensado nas artes como o seu segundo amor – logo a seguir ao beisebol.

Naqueles breves instantes, Chris tinha superado o arremesso infeliz, tinha tomado uma decisão e mudara para sempre o rumo da sua vida.
“Estou bem, pessoal. Ainda consigo desenhar.”
Dito isto, baixou a cama, virou-se de lado e adormeceu.

Isso foi há onze anos. Desde então, 40 por cento da visão voltou ao olho esquerdo de Chris. Mesmo com esta deficiência, que afeta gravemente a perceção ocular, ele continuou a atingir a média das batidas e a jogar na equipa de beisebol. Mas o seu objetivo de vida alterara-se. Chris terminou o curso universitário – com a ajuda de uma bolsa académica e não atlética – em pesca industrial e gestão da vida selvagem. Atualmente, as suas pinturas e ilustrações a lápis sobre este tema embelezam as páginas e as capas de revistas e de mais de uma dúzia de livros, e estão expostas em galerias e museus em Nova Iorque e no Tennessee. A lista dos clientes que aguardam encomendas de trabalhos a óleo ou aguarelas tem sempre um prazo de espera de cerca de um ano.

A coragem humana manifesta-se de inúmeras formas, vezes sem conta, todos os dias, em todas as cidades, vilas e aldeias de todos os continentes do mundo. Um arremesso infeliz, uma bola caída, um instante de dor, e tudo o que poderia ter dado lugar a vários meses de desespero transmuta-se em coragem, aceitação do que não se pode alterar…
E assim se pode mudar, para muito melhor, o rumo de uma vida!

Steve Smith

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