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O Canteiro dos Livros

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Se eu um dia quiser tornar-me escritor, terei de ser, antes de mais nada, um grande leitor… 

Francisco nem queria acreditar no que os seus olhos viam. No canteiro das hortênsias, ao fundo do quintal, tinham começado a sair da terra mole pedaços de folhas com palavras impressas e mesmo algumas lombadas de livros. O que estaria a acontecer no seu quintal, onde tudo parecia viver na maior paz e harmonia, sem espaço nem tempo para acontecimentos inexplicáveis?

A primeira coisa em que pensou foi ir a correr para casa e dizer à mãe: «Vem depressa, que estão a acontecer coisas muito estranhas no canteiro das hortênsias!»

Porém, teve medo que a mãe, conhecendo como conhecia a sua tendência para inventar fenómenos fantásticos, nem sequer perdesse tempo a dar-lhe atenção, ou então que, depois de ver o que estava a passar-se, fosse levada a pensar que tudo aquilo não passava de um truque bem apanhado.

Nessa noite, antes de se deitar, foi sorrateiramente ao quintal com uma lanterna na mão e descobriu que aquelas estranhas criaturas inanimadas mas cheias de letras continuavam a emergir da terra que vira nascer as mais belas hortênsias da sua rua, trazidas pela tia da ilha da Madeira.

Quando se deitou, levou mais tempo do que era habitual a adormecer e, como seria de prever, sonhou com livros a nascerem espontaneamente da terra. Como gostava muito de ler, conseguiu mesmo ver, em sonhos, alguns dos títulos impressos nas capas com letras de saltar à vista. Lá estavam As Aventuras de Pinóquio, As Fábulas de La Fontaine, Peter Pan, Os Contos de Andersen e O Principezinho. Claro que, nesse sonho, só conseguiu ver os livros de que mais gostava, exactamente porque estava a sonhar. Mas não seria também um sonho o que estava a acontecer no canteiro das hortênsias, daqueles sonhos que de súbito se desfazem em vento quando acordamos para a realidade?

Francisco não tinha o costume de sonhar acordado, mas há coisas que, não sendo habituais, um dia acabam mesmo por acontecer.

Na manhã seguinte, antes de sair para a escola, foi discretamente até ao canteiro, onde a luz do sol chegava filtrada pelas folhas de uma velha figueira, e apercebeu-se de que, fosse o que fosse, estava cada vez mais visível. Ora, se estava visível, acabaria mesmo por ser visto, a não ser que fosse só ele a ver.

Nesse dia, na escola, não contou a ninguém o que estava a acontecer, mas os colegas estranharam o seu silêncio e o seu nervosismo, e houve mesmo um que lhe disse:

— Esta noite deves ter dormido com os pés de fora e a lua fez-te um feitiço.

Os outros riram-se com o gracejo, mas Francisco deixou o engraçadinho sem resposta, mergulhado que estava no mistério das folhas impressas a saírem da terra.

Apetecia-lhe desabafar com alguém, mas não sabia com quem. Se o seu tio Bernardo ainda fosse vivo, era muito capaz de lhe ir contar em pormenor aquilo que os seus olhos não se cansavam de testemunhar. Que mistério seria aquele? Que explicação poderia ser encontrada para ele?

Chegado a casa, foi a correr para o computador e procurou na internet alguma pista que o pudesse conduzir a uma resposta. Mas saiu da agitação dessas ondas, da curiosidade sem limites, precisamente como tinha entrado, ou seja, sem resposta. De facto, nada havia, naquilo que pesquisou, que se aproximasse de um fenómeno tão estranho como o que estava a acontecer num canteiro do seu quintal. Apenas encontrou, navegando, informação sobre livros novos, sobre livros em saldo, sobre leilões de livros e sobre restauro de livros. Sobre livros a saírem de canteiros como alfaces ou flores nada conseguiu encontrar, o que o deixou ainda mais intrigado e inquieto. Aquele assunto tinha mesmo de ser resolvido, e ele seria uma parte natural da solução, já que a descoberta fora feita por si, sem ninguém por perto para confirmar ou para desmentir.

Assim, foi deixando que a situação evoluísse, mas, sempre que podia, ia observar o movimento lento e regular das folhas impressas, remexendo como pequenas toupeiras ocultas a terra, até aí habituada a lidar somente com flores.

Ao fim do quarto ou do quinto dia, viu, como se se tratasse de um pinto acabado de sair do aconchego do ovo, um livro prontinho a saltar para a luz do dia.

Era um exemplar antigo de As Viagens de Gulliver, um livro que gostara muito de ler. Pegou nele e descobriu que estava morno, como um ser recém-nascido, e que tinha colados à capa pequenos torrões de terra húmida, como se fosse a placenta que cobre os bebés acabados de sair do ventre materno. Com cuidado, tratou de o limpar e de o agasalhar, levando-o para casa debaixo da camisola. Enquanto o transportava para lugar seguro, ouviu uma vozinha a dizer-lhe:

— Obrigado por teres tomado conta de mim, mas, por favor, lembra- -te que há muitos outros como eu no sítio de onde acabo de sair.

Francisco não queria acreditar no que acabara de ouvir. Como podia um livro saído da terra de um canteiro ter voz própria e começar a falar com ele como se fosse uma criatura de carne e osso?

— Fico contente por seres capaz de falar, porque quero que me digas o que está a acontecer no canteiro das hortênsias.

O livro soltou um breve suspiro de cansaço, talvez porque o parto tivesse sido muito difícil, e respondeu-lhe:

— Descansa que, com o tempo, saberás o que tens de saber. Por enquanto, o mistério deve manter-se.

Resignado, Francisco levou o livro para casa e guardou-o com mil cuidados no fundo da última gaveta do armário, onde estavam as roupas de Inverno. Porque se tratava de uma criatura que falava, como ele, teve a preocupação de o embrulhar numa grossa camisola de lã, para não apanhar frio durante a noite.

Os dias foram passando e outros livros foram entrando no seu quarto às escondidas, não fosse a mãe descobrir o que estava a acontecer. E a verdade é que só não descobriu porque era a ele que estava confiada a tarefa de regar as flores dos canteiros e dos vasos do quintal. Ele lá ia, nos momentos certos, regar o que devia ser regado, mas tinha o cuidado de não molhar os livros para não os estragar. De resto, eles nem precisavam de ser regados porque nasciam e cresciam sem qualquer tipo de ajuda externa. Parecia que estavam programados para sair exactamente naqueles dias e àquelas horas, como se fossem extraterrestres a desembarcar na Terra vindos sabe-se lá de onde.

Certo dia, quando ele vinha da escola, a mãe chamou-o à cozinha com ar severo e disse-lhe:

— Olha, Francisco, não gosto nada do que está a passar-se no teu quarto.

— Estás a falar de quê, mãe? — perguntou Francisco com o mais rematado ar de inocência.

— Estou a falar de vozinhas que ouço sair de dentro do armário e que, por mais que procure, não sei de onde vêm. Para além disso, acho muito estranho que, de repente, tenhas passado a fazer a cama todos os dias e a deixar tudo arrumado quando, antes, ficava tudo numa completa desgraça, num verdadeiro caos.

Claro que Francisco passara a ter esse cuidado diário exactamente porque queria reduzir ao máximo o tempo que a mãe passava no seu quarto. E o certo é que, mesmo fazendo curtas visitas, já conseguira ouvir os livros em amena cavaqueira dentro da gaveta das camisolas da estação mais fria. Para o que lhes havia de ter dado!

Quem não gostava nada do que estava a acontecer no canteiro eram as hortênsias, que sentiam o seu território ameaçado por aquelas estranhas criaturas que não tinham perfume como a maior parte das flores, que apresentavam os corpos cheios de letras e que, num ou noutro caso, também estavam animadas por belas ilustrações de várias cores.

Francisco tinha o cuidado de evitar que os livros saídos da terra se acumulassem no canteiro, pois assim acabariam por ser descobertos, sobretudo porque tinham muita dificuldade em manter-se calados e era difícil dizer se eram eles que falavam ou se eram as personagens que moravam dentro deles que se punham para ali a tagarelar.

Quando os livros já não cabiam dentro da gaveta do armário, Francisco sentiu necessidade de esclarecer o mistério de uma vez por todas e, calçando umas luvas do pai que estava a trabalhar no estrangeiro, encaminhou-se para o canteiro e, remexendo na terra, tratou de descobrir o que havia lá debaixo.

Apesar de fazer essa operação de arqueólogo com o máximo cuidado, sem nenhuma cidade antiga à mão de semear, foi provocando protestos naqueles  que  estavam  prestes a  pôr  as lombadas  de fora. Mas  chegou mais fundo e tocou, assustado, num corpo mole e quente que lhe pareceu ter qualquer coisa de humano. Tratou, a medo, de o agarrar e de o puxar cá para fora, e assim descobriu que se tratava de um pequeno duende de barrete vermelho na cabeça, parecendo acabadinho de sair da história da Branca de Neve.

— Ah, com que então és tu que estás por detrás de tudo isto! — exclamou Francisco, sentindo que uma parte do mistério já se encontrava resolvida. Faltava agora a outra, isto é, a identidade do duende e o motivo da sua presença ali.

— Por favor, não me faças mal! — suplicou a minúscula criatura.

— Claro que não te faço mal, mas quero ouvir o que tens para me contar. Estou à espera.

Dizendo isto, ergueu o duende no ar como se quisesse assustá-lo com o perigo de uma queda que lhe seria fatal. Foi nesse instante que, amedrontado, o anãozinho palrador respondeu com uma voz muito fininha e de estranho sotaque:

— Eu sou um dos muitos duendes que habitam as profundezas da terra e os troncos ocos das árvores antigas. Durante séculos servi as fadas mais belas e benfazejas, mas, um dia, elas cansaram-se de fazer bem a quem não merece e eu fiquei perdido na floresta com alguns dos meus companheiros.

— E o que é que isso tem a ver com a tua presença neste canteiro do meu quintal? — perguntou Francisco, impaciente.

— Tem tudo a ver, como mais adiante perceberás. Vou tentar explicar-te. Um dia, estava eu na floresta quando apareceu um homem de meia idade, com o rosto muito pálido e trazendo alguns livros debaixo do braço. Sentou-se à sombra de uma árvore e eu percebi, não sei lá bem porquê, que estava à espera que eu aparecesse. E eu fiz-lhe a vontade, deixando-o com um sorriso de satisfação no rosto cansado.

— E o que foi que esse homem te disse?

— Vou tentar contar-te, mas agora, por favor, põe-me no chão. Ele disse-me que estava bastante doente e que tinha muitos, muitos livros que ninguém queria guardar em casa quando chegasse a hora de partir de vez. Contou-me também que tinha um sobrinho que gostava muito de ler, mas que não tinha espaço em casa para receber essa dádiva que valia um tesouro e que, por isso, devia ser resguardada e colocada nas mãos certas, que são as do amor. Foi então que eu lhe perguntei se a família do sobrinho tinha um quintal. Ele respondeu-me que sim e eu arquitectei uma solução.

— E como se chamava esse homem?

— Esse homem… esse homem… — esclareceu o duende, mantendo o mistério com as pausas no seu relato — chamava-se Bernardo.

— Mas esse é o nome do meu tio, do irmão da minha mãe, que morreu de doença há dois anos, embora fosse ainda novo. Será a mesma pessoa?

— O que achas, Francisco? Se não fosse, achas que eu vivia aqui escondido no teu canteiro, a fazer vir à superfície os livros que ele te queria oferecer sob a forma de um enredo fantástico, que eram aqueles de que ele mais gostava?

— Mas agora diz-me: o que vou eu fazer com todos estes livros que não param de sair da terra que alimenta as hortênsias?

— É uma boa pergunta — comentou o duende —, mas acho que tenho a resposta para ela.

Escolhes aqueles de que mais gostas e dás os outros a hospitais, prisões e escolas de meninos muito pobres e sem família. Se isso acontecer, o teu tio Bernardo, agora a passear sem pressa por uma terra onde as nuvens são feitas com a respiração das personagens dos grandes livros, vai ficar pela certa muito feliz.

Aproveitando uma pausa que Francisco fez na conversa, despediu-se e foi ajudar mais  alguns livros  a chegarem  até ao patamar da luz do  dia, mas antes ainda disse:

— Se estes livros ficarem sempre contigo, um dia, quando já fores velho, pedes ajuda a quem a deve dar e constróis uma biblioteca com o nome do teu tio Bernardo.

Francisco acolheu a sugestão com um sorriso terno.

Nessa noite, com o sono já a bater-lhe docemente à porta, chegaram-lhe aos ouvidos as vozinhas dos livros no armário, produzindo uma algazarra de jardim de infância, e, como queria dormir, advertiu:

— Se não se calam, volto a pô-los no canteiro das hortênsias, e olhem que não me apetece porque vamos ter de viver ainda muitos anos juntos, até irem para a casa que terá o nome do tio Bernardo.

O silêncio que então se fez no quarto assemelhava-se ao de uma biblioteca em pleno dia, com gente de todas as idades a ler livros que, sendo objectos frágeis, duram muito mais do que aqueles que os escreveram, desde que não os destruam antes do tempo.

E houve ainda um livro cujo título Francisco não conseguiu descobrir que lhe disse com a voz pausada e sábia dos livros tornados clássicos:

— E quem sabe se um dia não vais tornar-te escritor para poderes contar esta história do canteiro dos livros aos leitores mais novos.

Francisco deixou-o na dúvida, nada lhe respondendo, mas disse para consigo: «Se eu um dia quiser tornar-me escritor, terei de ser, antes de mais nada, um grande leitor, porque um escritor é sempre um leitor de muitos, muitos livros, e se deixar de o ser, acabará também por deixar de escrever, mais tarde ou mais cedo.»

José Jorge Letria
O canteiro dos livros
Lisboa, Texto Editores, 2006
(Adaptação)

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