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Uma cadela bailarina

cadeira rodas 2m

Numa tarde de abril, uns dias depois do meu vigésimo primeiro aniversário, os meus pais anunciaram que estavam prontos para me dar um presente de aniversário atrasado. Limitada a uma cadeira de rodas desde o nascimento, fui até à sala de estar onde os meus pais me aguardavam ansiosamente.

− Quem espera não desespera − brinquei, enquanto fechava os olhos e estendia as mãos, esperando sentir o peso de um presente lindamente embrulhado.
− Porque estás a estender as mãos? − riu o meu pai. − O teu presente não vem numa caixa este ano.
Abri os olhos e vi o deleite estampado nos rostos usualmente calmos de ambos.
− Deve ser aquele carrinho para incapacitados pelo qual eu tenho rezado!
− Não, não é o carrinho, mas é quase tão bom − sorriu a minha mãe.
Depois disse:
− Jackie, sabemos como ficaste devastada quando morreu o Buck no ano passado. Todos ficámos. Era um cão fantástico. Mas pensamos que é tempo de ouvir outra vez os barulhos de um cachorrinho.
− Por isso hoje, agora mesmo, de facto − interrompeu o meu pai −, vamos a um lugar onde podes escolher um cachorrinho a teu gosto.

Não houve tempo para protestos.
O meu pai retirou-me da minha cadeira e meteu-me no carro.
− Quando lá chegarmos, podíamos ir diretamente aos cachorrinhos shih tzu? Sei que são os teus favoritos – disse a minha mãe.
“O meu favorito era o Buck,” pensei, “não a sua raça.” Em voz alta, disse:
− As raças não interessam. É o coração deles que conta. Vê-los-ei a todos.

Um coro de latidos e uivos anunciou a nossa chegada, enquanto um empregado se ofereceu para nos mostrar os cachorrinhos disponíveis. Os meus pais aceitaram, mas eu fiquei para trás, contemplando os outros cães, que andavam de um lado para o outro a tremer, suplicando para serem libertados das suas prisões de quatro paredes.

Fui sorrindo, até que… Até que vi o rosto do meu pai a brilhar como um sol do meio-dia.
− Jackie, vem cá! − chamou.
Intrigada e com o coração a bater fortemente, dirigi-me para o canil diante do qual os meus pais estavam parados. Lutando para ter uma vista melhor, icei-me, esticando as pernas com esforço. Ali, aninhados no canil, estavam dois angélicos shih tzus. O macho, um cachorro felpudo caramelo e branco, era amigável e correu logo para mim. A sua irmã mais pequena, uma linda cachorrinha negra e branca, era mais tímida, tendo esperado que eu me inclinasse um pouco antes de lamber o meu nariz.
− Bem, parece que não iremos para casa de mãos vazias − disse a minha mãe como se desse voz aos meus pensamentos.
− Fantástico − declarou o meu pai, satisfeito. − Qual deles vamos levar?
Eu estava inclinada a levar o macho; era muito mais brincalhão. Mas a fêmea era tão pequenina, e tinha uns olhos de ébano tão cativantes e doces… Senti-me profundamente indecisa.

O empregado, observando o meu impasse, sussurrou:
− Se fosse a si, levava o macho porque a fêmea é deficiente. Tem as pernas deformadas; quando está de pé, parece uma bailarina à espera de começar a dançar.
Fiquei siderada com a sua insensibilidade. Não tinha ele visto as minhas pernas ou a cadeira-de-rodas em que estava sentada? O empregado viu a minha expressão e continuou:
− Não é minha intenção perturbá-la, mas a cadelinha precisará de cuidados constantes. E a última coisa de que provavelmente precisam é de mais contas médicas.

Desejando provar que ele estava errado, coloquei-a de pé. As suas pernas arqueadas abriram-se logo em tesoura, enquanto se esforçava por manter o equilíbrio.
Contudo, não obstante o seu enorme esforço, as pernas deficientes vacilaram e caiu para o lado.
− Está a ver as pernas cruzadas? – perguntou o empregado em voz baixa. – É por isso que lhe chamamos a cadela bailarina.
Os meus olhos cintilavam enquanto ouvia o seu débil arquejar. Entendia muito bem aquele esforço. Queria levá-la, mas o empregado tinha razão: poderíamos arcar com a despesa dos seus tratamentos?
− Vou levar o cãozinho… − disse, resignada.

Enquanto estávamos a despedir-nos da pequena fêmea, ela lutou de novo para se pôr de pé. Mostrando determinação, empurrou o irmão para o lado e colocou um pé diante do outro, com cuidado, enquanto começava a sua lenta e firme subida para o meu colo.
Vacilou e tropeçou, mas não parou até que se aninhou contra o meu coração.
Rindo e chorando ao mesmo tempo, sussurrei:
− Já compreendi, cadela bailarina. Vou levar-te também comigo.

Satisfeita, a cadelinha fechou os olhos, sabendo que a sua missão estava cumprida. Lá nos arranjaríamos com os cuidados que ela precisasse: havia de correr tudo bem. Para ela e o irmão.
Virei-me para o empregado e disse:
− Desculpe, mas houve uma mudança de planos. Vou também levar a cadela bailarina.
E os meus pais concordaram.

Jackie Tortoriello

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