É espantoso que o livro mais citado do mundo seja também o menos lido. Ou, pelo menos, o menos lido de olhos abertos. As pessoas levam-no para a guerra, fazem juramentos com a mão sobre ele, guardam-no nas mesas de cabeceira. E, no entanto, a maioria nunca chega a conhecê-lo verdadeiramente — apenas umas quantas frases escolhidas a dedo. “Deus é amor.” “Não julgues.” “Dá a outra face.” Fragmentos arrancados dos parágrafos incómodos que se seguem.
Pega-se num exemplo simples: “Ama os teus inimigos.” (Mateus 5:44). Parece nobre, poético, universal — até se recuar umas páginas e se encontrar “Não deixarás viver uma feiticeira.” (Êxodo 22:17) Uma linha destila misericórdia, a seguinte, horror medieval. O cristão moderno escolhe uma e finge que a outra é apenas “contexto histórico”. O equivalente teológico de uma borracha mágica.
E nisto reside a estratégia. Uma cegueira seletiva como instinto de sobrevivência. Cada versículo que embaraça a consciência moderna é rotulado como simbólico. Cada linha reconfortante é verdade eterna.
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